
As projeções indicam que o El Niño tem cerca de 90% de probabilidade de se estabelecer nos próximos meses, segundo a National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), agência norte-americana responsável pelo monitoramento dos oceanos e da atmosfera. As mesmas projeções apontam ainda aproximadamente 50% de probabilidade de o fenômeno atingir intensidade forte ou muito forte, cenário que ficou conhecido como “Super El Niño”.
Mais do que discutir se o fenômeno será mais ou menos intenso, o momento nos convida a uma reflexão mais ampla. Essa informação representa um sinal de alerta para governos, empresas e para todos os setores que dependem diretamente das condições climáticas. Entre eles, o turismo.
E, para nós, que atuamos nessa atividade, a pergunta é inevitável: o que isso significa para o turismo?
O turismo é uma das atividades econômicas mais dependentes das condições climáticas. Um possível Super El Niño não representa apenas dias mais quentes ou mais chuvosos. Ele pode alterar profundamente a dinâmica das viagens, afetando destinos, empresas, comunidades e viajantes.
Para o turismo, isso significa muito mais do que acompanhar a previsão do tempo. Durante muitos anos, olhamos e falamos sobre clima como um componente da experiência da viagem, mas estamos entrando definitivamente em uma era. Hoje, o setor precisa compreender que o clima passou a ser um fator estratégico de gestão e dos negócios.
As mudanças climáticas estão aumentando a frequência e a intensidade dos eventos extremos, potencializando secas prolongadas, ondas de calor, chuvas torrenciais, enchentes, incêndios florestais e seus efeitos impactam a infraestrutura e a vida das pessoas. Deixaram de ser eventos isolados e alterações nas condições climáticas, para se tornarem variáveis que influenciam diretamente na operação turística, na experiência do visitante e na competitividade dos destinos.
Significa compreender que eventos extremos podem alterar operações aéreas e outros meios de transporte, bloquear rodovias, e dificultar o acesso aos destinos, fechar temporariamente parques, praias, trilhas e atrativos naturais, cancelar ou adiar eventos, provocar danos à infraestrutura turística, perda temporária da atratividade de determinados produtos turísticos, modificar temporadas e alterar a sazonalidade tradicional de muitos destinos, influenciar diretamente a percepção de segurança e na experiência do viajante, aumentar os custos operacionais e despesas com remarcações e reacomodações.
Ao mesmo tempo, esses fenômenos podem redistribuir fluxos turísticos, criar novas oportunidades para determinadas regiões e acelerar uma tendência já perceptível: os viajantes valorizam cada vez mais destinos preparados, seguros e resilientes.
Em outras palavras, os eventos climáticos extremos deixam de representar apenas um desafio ambiental e passam a constituir um importante fator de risco operacional, financeiro e reputacional para toda a cadeia do turismo. E isso vale para destinos, operadoras, agências, hotéis, companhias aéreas, parques, atrativos e toda a cadeia do turismo.
Nenhum elo do turismo enfrenta esse desafio sozinho. Destinos, operadoras, agências, companhias aéreas, meios de hospedagem, atrativos e poder público precisam compartilhar informações, fortalecer protocolos e atuar de forma integrada. Em um cenário de eventos climáticos mais frequentes, a resiliência passa a ser uma construção coletiva.
O operador transforma incerteza em confiança
Não posso deixar de trazer a perspectiva das operadoras de turismo, segmento representado pela Braztoa. Há também uma outra razão para esse destaque: elas ocupam uma posição estratégica na cadeia turística e estão entre os elos que mais convivem com a gestão de riscos em seu dia a dia.
Muito antes de os riscos climáticos ganharem protagonismo, as operadoras já administravam diferentes tipos de incertezas. No dia a dia das operações, aprenderam a lidar com oscilações cambiais, crises econômicas, instabilidades políticas, eventos geopolíticos, desafios sanitários e inúmeros acontecimentos inesperados capazes de impactar uma viagem.
As operadoras de turismo são, por natureza, gestoras de risco. Avaliam fornecedores, acompanham condições de operação, monitoram destinos, constroem alternativas logísticas, orientam viajantes, acionam planos de contingência e reorganizam roteiros diante de situações inesperadas.
Quando tudo acontece como planejado, muitas vezes esse trabalho passa despercebido. Mas é justamente nos momentos de crise que esse valor e expertise aparecem.
Quando uma tempestade interrompe voos, um incêndio fecha um parque, uma enchente bloqueia uma estrada ou um evento precisa ser cancelado, entram em cena a experiência, a rede de parceiros, a capacidade de reorganizar roteiros e oferecer soluções. É nesse momento que a intermediação qualificada faz toda a diferença.
O viajante compra uma viagem, mas o que ele realmente procura é tranquilidade. E é exatamente aí que está uma das maiores contribuições das operadoras: transformar incerteza em confiança.
No turismo, confiança também se constrói por meio da gestão de riscos. E, em um cenário de eventos climáticos cada vez mais frequentes e intensos, um novo componente passa a integrar definitivamente essa equação: os riscos climáticos.
Um chamado para o setor
Independentemente de o fenômeno atingir ou não a intensidade de um “Super El Niño”, a mensagem é clara: o clima está mudando e o turismo precisa mudar junto.
Durante muitos anos perguntamos como o turismo poderia reduzir seus impactos sobre o planeta. Essa continua sendo uma agenda indispensável. Mas talvez seja hora de acrescentarmos uma nova pergunta: como podemos preparar o turismo para um planeta que já está mudando?
A resposta passa por inovação, inteligência de dados, planejamento, colaboração e gestão de riscos. Passa também por reconhecer que sustentabilidade e competitividade caminham lado a lado.
Precisamos desenvolver a capacidade de antecipá-los, proteger pessoas, apoiar comunidades e garantir a continuidade das operações. Afinal, um destino resiliente é mais competitivo. Uma operação preparada inspira mais confiança. E um setor capaz de antecipar desafios estará sempre em melhores condições de proteger viajantes, apoiar comunidades e gerar desenvolvimento.
Porque um turismo verdadeiramente sustentável não é apenas aquele que preserva destinos. É aquele que garante que eles continuem acolhendo pessoas, gerando oportunidades e promovendo desenvolvimento, mesmo diante das incertezas de um mundo em constante transformação.







