
A estratégia da Latam Airlines de ampliar sua presença em aeroportos considerados estratégicos na América do Sul levou o BTG Pactual a reforçar sua visão positiva sobre a companhia. Em relatório divulgado nesta semana, o banco manteve recomendação de compra para os American Depositary Receipts (ADRs) da empresa negociados na Bolsa de Nova York e estimou potencial de valorização de 37% nos próximos 12 meses. Apesar da perspectiva otimista, a instituição alerta que a alta do preço do querosene de aviação deve pressionar os resultados financeiros do segundo trimestre de 2026.
O BTG definiu preço-alvo de US$ 72 para os ADRs da companhia, ante a cotação de US$ 52,56 considerada no estudo. Somado ao rendimento estimado de 1,9% em dividendos, o retorno total projetado pode chegar a 38,9%.
Expansão foi concentrada em mercados estratégicos
De acordo com os analistas Lucas Marquiori, Fernanda Recchia e Samuel Alkmim, a Latam adotou uma estratégia de crescimento mais seletiva, direcionando investimentos para mercados com maior demanda, melhor conectividade e posição competitiva consolidada.
Segundo o relatório, essa estratégia permitiu ampliar a participação da companhia em aeroportos considerados fundamentais para a operação regional, especialmente Guarulhos e Brasília.
Por outro lado, terminais como Congonhas e Santos Dumont registraram perda de participação, indicando que a empresa concentrou esforços apenas onde identificou maior potencial de retorno.
Guarulhos impulsiona crescimento internacional
O Aeroporto Internacional de Guarulhos foi o principal destaque da expansão internacional da Latam durante o segundo trimestre.
A capacidade da companhia aumentou 17% na comparação com o mesmo período de 2025, enquanto o número de passageiros cresceu 11%. Com isso, a participação da empresa no mercado internacional do terminal chegou a 39%, avanço de 2,7 pontos percentuais.
O desempenho também superou o crescimento do próprio mercado. Enquanto a oferta da Latam avançou 17%, a capacidade total das companhias que operam em Guarulhos cresceu apenas 4%.
Para o BTG, o aeroporto paulista foi responsável pela maior expansão absoluta da empresa nas rotas internacionais e consolidou sua posição como principal centro de conexões da companhia no Brasil.
Brasília lidera expansão doméstica
Nas operações nacionais, Brasília apresentou os melhores resultados entre os aeroportos brasileiros acompanhados pelo banco.
A oferta de assentos aumentou 14% durante o trimestre, acompanhada de um crescimento de 10% no fluxo de passageiros. A participação de mercado da Latam subiu para 56%, avanço de 2,8 pontos percentuais em relação ao mesmo período do ano anterior.
Segundo o relatório, o desempenho reforça a importância estratégica da capital federal para distribuição de passageiros entre diferentes regiões do país.
Santiago registra resultados distintos
O cenário foi diferente no Chile. Nas operações internacionais realizadas em Santiago, a capacidade cresceu 9%, mas o número de passageiros caiu 5%, provocando redução de 0,7 ponto percentual na participação da companhia.
Os dados de junho mostraram desaceleração ainda mais intensa. A oferta internacional caiu 7%, enquanto o fluxo de passageiros recuou 28% em relação ao mesmo mês de 2025.
Já no mercado doméstico chileno, a Latam manteve trajetória positiva. A capacidade aumentou 10%, o número de passageiros cresceu 6% e a participação atingiu 67%, consolidando sua liderança nas operações internas do país.
Congonhas e Santos Dumont perdem espaço
Os números foram menos favoráveis nos aeroportos de Congonhas, em São Paulo, e Santos Dumont, no Rio de Janeiro.
Em Congonhas, a oferta cresceu 5%, mas o movimento de passageiros recuou 2%. Como consequência, a participação da companhia caiu para 43%.
No Santos Dumont, a quantidade de assentos permaneceu praticamente estável, enquanto o fluxo de passageiros diminuiu 2%, reduzindo a participação da empresa para 35%.
Na avaliação do BTG, esses resultados mostram que a companhia priorizou investimentos em aeroportos onde conseguiu ampliar simultaneamente capacidade, demanda e participação de mercado.
Alta do combustível deve pressionar o balanço
Apesar da avaliação positiva sobre a estratégia operacional, o banco acredita que o segundo trimestre será marcado pelo impacto do aumento dos custos com combustível.
Segundo o relatório, a administração da Latam estima que as despesas adicionais com querosene de aviação possam superar US$ 700 milhões ao longo do ano.
O aumento dos preços foi impulsionado pela escalada das tensões no Oriente Médio, elevando os custos operacionais das companhias aéreas em diversos mercados.
Embora a empresa tenha reajustado tarifas, os analistas avaliam que será difícil repassar integralmente esse aumento aos passageiros sem comprometer a demanda.
Até maio, a tarifa média doméstica da Latam no Brasil era de aproximadamente R$ 641, valor ligeiramente superior ao praticado pelas concorrentes.
Ainda assim, o BTG considera que esse diferencial não é suficiente para neutralizar completamente o impacto da alta do combustível sobre as margens da companhia.
Integração regional pode favorecer expansão
Outro ponto destacado no relatório é o acordo firmado entre Brasil, Argentina, Chile e Paraguai para ampliar a integração do mercado aéreo sul-americano.
A iniciativa prevê a criação de um grupo de trabalho para discutir medidas voltadas à ampliação dos direitos de tráfego, redução de barreiras regulatórias e harmonização das regras entre os países.
Para o BTG, empresas com presença regional, como a Latam, podem se beneficiar dessa flexibilização ao distribuir aeronaves de forma mais eficiente, fortalecer conexões e criar novas rotas internacionais.
Ao mesmo tempo, a abertura tende a aumentar a concorrência, especialmente em mercados hoje limitados por acordos bilaterais.
Concorrência também cresce
O relatório também chama atenção para o fortalecimento do Abra Group, controlador da Gol e da Avianca.
Nesta semana, o grupo confirmou a compra de 20 aeronaves Embraer E195-E2, com possibilidade de ampliar o pedido para até 45 unidades. As entregas começam em 2027 e devem ampliar a presença da empresa em rotas regionais.
A Latam também possui encomendas desse modelo e prevê incorporar até 74 aeronaves nos próximos anos, reforçando sua estratégia de expansão em mercados de menor demanda.
BTG mantém recomendação positiva
Mesmo diante dos desafios de curto prazo, o BTG Pactual manteve a Latam como sua principal recomendação entre as companhias aéreas latino-americanas.
O banco projeta receita de US$ 17,21 bilhões para 2026, com Ebitda de US$ 4,03 bilhões e lucro líquido de US$ 1,23 bilhão.
Para 2027, a estimativa é de faturamento de US$ 19,17 bilhões, Ebitda de US$ 5,10 bilhões e lucro de US$ 1,80 bilhão.
Já para 2028, a projeção aponta receita de US$ 21,15 bilhões, Ebitda de US$ 5,58 bilhões e lucro líquido de US$ 2,10 bilhões.







