Voo
Bruno Villa, Diretor de Marketing, Sustentabilidade e Inovação (Eric Ribeiro M&E)

Atrair um voo internacional não significa, por si só, ampliar o turismo pelo Brasil. O desafio seguinte é fazer com que esse passageiro permaneça mais tempo, consuma diferentes produtos e avance para destinos além das principais portas de entrada do país. É nesse ponto que conectividade, oferta turística e estratégia de promoção passam a fazer parte da mesma equação.

Em entrevista ao M&E, Bruno Villa, diretor de Marketing Internacional, Negócios e Sustentabilidade da Embratur, analisa os caminhos para transformar a chegada de turistas estrangeiros em negócios para diferentes regiões brasileiras. Ele também fala sobre o papel dos dados na promoção internacional, a diversificação da oferta e a necessidade de aproximar a estratégia de promoção de quem efetivamente comercializa o destino no exterior.

MERCADO & EVENTOS – O mercado internacional de turismo tornou-se hipercompetitivo. Destinos disputam a atração de viajantes de alto valor. De que forma o uso da inteligência de dados transformou as tomadas de decisão na promoção de destinos continentais e na identificação de novos perfis de consumo?

BRUNO VILLA – A inteligência de dados é hoje o pilar central da promoção internacional. É assim que a Embratur atua, com base em dados como malha aérea, intenção de busca, comportamento de compra e gasto médio do turista em tempo real. Isso permite identificar tendências antes mesmo de se consolidarem e direcionar esforços promocionais e até mesmo fazer campanhas segmentadas voltadas para públicos que buscam permanência mais longa, experiências autênticas, diversidade cultural e menor impacto ambiental, maximizando a eficiência das ações.

M&E – Diversificar a oferta para além dos produtos tradicionais de sol e praia é um desafio histórico para destinos de grande dimensão. Quais abordagens estratégicas e técnicas de posicionamento são importantes para consolidar segmentos como afroturismo, ecoturismo e turismo de experiência no portfólio de vendas das operadoras globais?

BRUNO VILLA – A diversificação exige uma mudança no formato de apresentação dos nossos destinos. Quando falamos de ecoturismo e afroturismo, por exemplo, não se trata de produtos de nicho. O viajante que vem ao Brasil por motivação de Negócios, Luxo ou mesmo Sol e Praia também consome gastronomia, cultura, história e natureza. São vertentes transversais que agregam valor e reduzem a sazonalidade. Para entrar nas prateleiras das grandes operadoras mundiais, esses segmentos precisam de estruturação de produto, capacitação de agentes internacionais e a criação de narrativas contemporâneas que mostrem a sofisticação e a riqueza da diversidade cultural brasileira.

M&E – A conectividade aérea é a espinha dorsal do turismo receptivo internacional. Quais são as estratégias estruturais que o setor deve adotar para dialogar com companhias aéreas internacionais, captar novos voos e garantir que a ampliação das frequências reflita de maneira integrada nos destinos do interior?

BRUNO VILLA – A captação de voos internacionais não depende apenas do desejo do destino; é uma equação matemática que envolve rentabilidade para as companhias aéreas, para os aeroportos, estudos de demanda potencial para as cidades que pretendem receber o voo e sustentabilidade dessa rota ao longo do tempo. O diálogo bem-sucedido envolve construir rotas com inteligência de mercado, demonstrando o potencial de demanda bidirecional. Envolve, também, articular com o trade local, operadoras e aeroportos. Garantir o transbordamento do fluxo para cidades que não recebem passageiros desses voos exige a estruturação prévia de rotas regionais e a qualificação da oferta, para que o hub de chegada funcione como um indutor de negócios para toda a região.

M&E – O conceito de sustentabilidade tornou-se premissa no mercado global de viagens. Como garantir que as diretrizes ESG e a preservação socioambiental ultrapassem o discurso institucional e se tornem ativos comerciais reais de atração de turistas?

BRUNO VILLA – A sustentabilidade precisa ser percebida no produto final. O turista internacional busca impacto positivo. Quer ter experiências e saber como sua viagem apoia a economia local, conserva biomas e respeita comunidades tradicionais. A atração de negócios sustentáveis se dá quando o mercado internacional enxerga a biodiversidade e a cultura local não como pano de fundo, mas como a essência da experiência. Para isso, é preciso qualificar produtos e conquistar certificações que validem o posicionamento dos destinos brasileiros diante de um público cada vez mais exigente.

M&E – Na ABAV Expo toda a cadeia produtiva do turismo se reúne. Qual é a importância estratégica da integração entre as diretrizes de promoção internacional e as operadoras, agentes de viagens e o setor de economia criativa na ponta receptiva?

BRUNO VILLA – A promoção internacional só gera conversão em vendas quando conversa diretamente com quem está na ponta vendendo o destino. O agente de viagens e o operador são os grandes elos de confiança do turista. Quando somamos a isso o ecossistema da economia criativa,  nossa gastronomia, artes, música e manifestações culturais, criamos produtos turísticos autênticos. É fundamental garantir que o trade tenha acesso a ferramentas técnicas, conhecimento de mercado e ambiente de negócios para transformar nosso potencial em contratos fechados e aumento no fluxo de turistas internacionais.