
A trajetória de Lucicleide Monteiro Nascimento, conhecida no mercado de turismo como Lucy Baiana, começou longe dos corredores das feiras internacionais. Antes de vestir o tradicional traje de baiana, ela trabalhava como modelo. A mudança de rumo aconteceu quando participou de um concurso de beleza e ficou em segundo lugar.
A colocação, porém, acabou abrindo uma nova oportunidade. Um empresário que acompanhou o concurso considerou que Lucy merecia mais destaque e a convidou para participar da capa de um disco chamado ‘Lembranças da Bahia’. Para o trabalho, ela precisaria se vestir de baiana pela primeira vez.
“Eu perguntei como seria o trabalho e me disseram que eu iria me vestir de baiana. Eu falei: ‘Eu não sei me vestir de baiana’. Aí me vestiram. A foto ficou bonita, eu estava com o coco na mão e uma roupa vermelha e branca”, conta.
A imagem chamou atenção e Lucy começou a ouvir que ficava bem caracterizada como baiana. Pouco tempo depois, em busca de uma atividade profissional mais estável, ela descobriu que poderia trabalhar no Pelourinho.
Foi ali que começou uma relação que mudaria sua vida.
O Pelourinho como escola de turismo
Lucy conseguiu uma oportunidade em uma loja de joias no Pelourinho e passou a conviver diariamente com visitantes de diferentes partes do mundo. Mais do que vender produtos, percebeu que aquele ambiente funcionava como uma verdadeira escola de hospitalidade e comunicação. “Eu achava incrível porque as pessoas falavam vários idiomas na hora da venda. Se viesse espanhol, falava espanhol; se viesse italiano, falava italiano; se viesse inglês, falava inglês. Os vendedores ali falam qualquer idioma”, lembra.
A experiência despertou seu interesse pelo turismo e pelo contato com estrangeiros. Em pouco tempo, Lucy descobriu que havia uma estrutura ligada ao governo da Bahia que selecionava profissionais para participar de eventos de promoção turística.
Ela fez a inscrição, foi selecionada e começou a conciliar as duas atividades. Quando havia viagem a trabalho, deixava outra baiana em seu lugar na loja e seguia para os eventos. Quando não tinha viagem, retornava ao Pelourinho.
Foram aproximadamente dez anos trabalhando no local, período em que construiu uma relação próxima com turistas e começou a se tornar uma personagem conhecida nos eventos de promoção da Bahia.
A “Lucy Baiana” ganha o mundo
As primeiras viagens foram para diferentes estados brasileiros, como Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul. Depois vieram os eventos internacionais em países como Portugal, Espanha, Itália, Alemanha e Estados Unidos.
A estratégia acabou criando uma situação curiosa: turistas que haviam conhecido Lucy em um evento ou durante uma viagem posteriormente a reencontravam na Bahia. “Quando eles vinham de férias e me reconheciam, o dono da loja começou a perceber que isso era bom para a loja. Quando eles chegavam e me viam de baiana, ficavam loucos. Era ‘a baiana que estava lá no Rio’, ‘a baiana que estava em São Paulo’. Eles vinham tirar foto comigo e depois visitavam a loja e compravam”, relata.
Com o tempo, sua imagem passou a circular entre os visitantes. Lucy tornou-se uma espécie de ponto de referência para turistas que associavam sua figura à Bahia e ao Pelourinho. “Eles diziam: ‘A baiana que estava lá em tal país’, ‘a baiana que viaja’, ‘a baiana que aparece nos eventos’. Foi uma coisa que aconteceu com toda essa repercussão do meu trabalho.”
O turismo também virou formação acadêmica
A experiência profissional levou Lucy a uma decisão que ajudaria a consolidar sua carreira: cursar Turismo. O incentivo veio de uma diretora, que também era professora da área. Ao perceber que Lucy já vivia na prática uma rotina ligada ao turismo, sugeriu que ela buscasse formação acadêmica. “Ela me disse: ‘Você fica indo e vindo, nossa funcionária. Lá na faculdade você pode fazer Turismo’. Eu disse que queria”, recorda.
A graduação não foi simples. A intensa agenda de viagens fez com que estivesse muitas vezes mais ausente do que presente nas atividades acadêmicas. Mesmo assim, conseguiu concluir o curso. Paralelamente, investiu no aprendizado de idiomas. Sempre que encontrava cursos básicos de espanhol, italiano ou inglês, procurava participar. “Tudo que tinha eu estava fazendo, para aperfeiçoar e também para trabalhar legal na loja e nas viagens”, explica.
A combinação entre formação acadêmica, experiência prática e contato direto com turistas ajudou a transformar Lucy em uma das figuras mais reconhecidas da Bahia em eventos de promoção turística.

Muito além da fotografia
A relação de Lucy com os visitantes, entretanto, ultrapassa a tradicional fotografia com o traje típico. Ao longo dos anos, ela acumulou histórias de pessoas que conheceram a baiana em viagens à Bahia e voltaram ao destino anos depois para mostrar como suas vidas haviam mudado.
Uma das situações que mais a emocionam envolve uma turista que conheceu Lucy ainda criança. Anos depois, a jovem retornou à Bahia já adulta. “Ela tinha seis anos na época e hoje tem 22. Fico emocionada porque ela também ficou emocionada”, conta.
Esse tipo de reencontro não é raro. Lucy relata que muitas pessoas que conhecem as baianas no Pelourinho retornam para contar histórias, apresentar filhos ou simplesmente mostrar fotografias antigas. “Já cansei de estar em uma feira no exterior e vir um alemão que tirou foto comigo aqui na Bahia, no Pelourinho. Ele vem com a foto na carteira e me mostra só eu e a pessoa. Isso acontece muito.”
A fita do Bonfim e os pedidos dos turistas
Parte dessa relação passa também pelo simbolismo associado à Bahia. Visitantes procuram Lucy para amarrar uma fita do Senhor do Bonfim, fazer pedidos, falar sobre relacionamentos, filhos, sonhos e conquistas pessoais. “São pessoas que vêm falar comigo para amarrar uma fita do Senhor do Bonfim e pedem casamento, e hoje estão casadas. São pessoas que pedem para ter filhos e agora têm filhos. São pessoas que pedem para conquistar algumas coisas”, relata.
Para Lucy, esses momentos mostram que o traje de baiana representa muito mais do que uma fantasia ou um uniforme profissional. “Não é só um traje típico. É uma roupa que chama atenção, mas é também uma roupa de origem africana, uma baiana que também é usada dentro do Candomblé, dentro dos terreiros. Então existe o respeito.”
Segundo ela, muitos turistas procuram a baiana justamente pela possibilidade de estabelecer uma conexão afetiva e simbólica com a cultura local. “As pessoas vêm mesmo para me contar um problema, para ver se eu tenho uma palavra de conforto, para ver se eu amarro uma fita e os desejos se realizam.”

Uma profissão que envolve afeto
Depois de tantos anos viajando e participando de eventos, Lucy afirma que o trabalho não pode ser resumido à remuneração. “O dinheiro a gente precisa, mas também eu gosto do meu trabalho. Não é só o dinheiro. Eu gosto de vestir essa roupa, gosto de saber que posso dizer uma palavra de conforto para o próximo, que posso ajudar, que posso fazer qualquer coisa para a pessoa se sentir pelo menos um pouco melhor.”
Essa dimensão humana talvez seja uma das razões pelas quais sua imagem permanece na memória de tantos visitantes. Lucy não apenas apresenta a Bahia: ela estabelece uma relação pessoal com quem chega ao destino.
Sua presença em eventos nacionais e internacionais também funciona como uma extensão dessa experiência. A figura da baiana, nesse contexto, deixa de ser apenas um elemento visual e passa a representar acolhimento, identidade e cultura.

Uma nova relação com a tradição
Embora tenha começado a vestir o traje de baiana antes de sua iniciação religiosa, Lucy atualmente mantém uma relação ainda mais profunda com essa tradição.
Seu nome completo é Lucicleide Monteiro Nascimento. No Candomblé, onde foi iniciada em Salvador, é conhecida pelo apelido de Neguinha. No turismo e nas redes sociais, consolidou-se como Lucy ou Lucy Cleide – e, principalmente, como Lucy Baiana.
“Eu sou filha de Oyá, tenho 14 anos de santo e tenho também um cargo de mãe de santo, mas ainda não estou exercendo. Estou me preparando para assumir.”
A trajetória, assim, ganhou uma nova dimensão. A mulher que começou como modelo, encontrou no Pelourinho uma profissão e passou a viajar pelo mundo promovendo a Bahia, hoje carrega também uma relação religiosa e cultural mais profunda com os símbolos que representa.

Uma embaixadora informal da Bahia
Sem precisar de um cargo oficial, Lucy tornou-se, ao longo de décadas, uma espécie de embaixadora informal da Bahia. Sua imagem aparece associada a eventos, feiras, encontros de turismo e ações promocionais em diferentes países.
Mais do que a quantidade de viagens ou de fotografias acumuladas, sua história é marcada pelos vínculos criados com os visitantes. São pessoas que a conheceram no Pelourinho, reencontraram em outro país, voltaram à Bahia anos depois ou simplesmente guardaram uma fotografia como lembrança de uma experiência.
“Eu acho muito bonito, é prazeroso. Eu gosto do meu trabalho”, resume.
E é justamente nessa mistura de profissão, cultura, acolhimento e identidade que está a força da Lucy Baiana: uma personagem que ajuda a apresentar a Bahia ao mundo e que, ao mesmo tempo, transforma cada encontro com o visitante em uma pequena história para levar de volta para casa.

Uma foto antiga, uma tentativa de recriar o passado e uma surpresa que ninguém esperava. Depois de mais de 20 anos, o destino colocou frente a frente duas pessoas que já haviam compartilhado uma história na Bahia.
O mais curioso? A pessoa reconhecida na Arena Abreu era justamente a mesma das fotos! O reencontro emocionou e mostrou como algumas memórias permanecem vivas, mesmo depois de décadas.
Confira a emocionante e grata surpresa que ambas tiveram neste breve reels.







