Por que grandes marcas do turismo ficaram fora da COP30 no Brasil
O ministro Celso Sabino afirmou que incentivará maior presença empresarial na COP31 (Raimundo Pacco/COP30)

A COP30, realizada em Belém (PA), dedicou dois dias completos ao turismo: um espaço inédito para discutir emissões, financiamento climático e políticas de descarbonização em um setor que responde por cerca de 9% das emissões globais, quase metade delas provenientes da aviação.

Ainda assim, a presença da indústria foi significativamente menor do que em 2024, quando o segmento havia conquistado protagonismo com o primeiro Tourism Day da COP e o compromisso de 70 governos para integrar o turismo aos seus planos climáticos nacionais.

A ausência, segundo especialistas, revela uma combinação de entraves logísticos, falta de clareza estratégica e até temores políticos, que acabaram afastando players relevantes.

Logística difícil e falta de previsibilidade desestimularam o setor

A justificativa mais frequente entre empresas ausentes foi simples: era difícil chegar e permanecer em Belém durante o evento. A capital paraense recebeu dezenas de milhares de participantes e enfrentou gargalos de hospedagem, transporte e estrutura para grandes delegações.

Segundo o Skift, para Christopher Imbsen, vice-presidente de pesquisa e sustentabilidade do WTTC, o cenário impediu que o setor conseguisse repetir o engajamento do ano anterior. “Criamos um ótimo impulso em 2024. É uma pena ver o turismo menos representado justamente quando mais precisamos mostrar relevância climática”, afirmou.

A falta de previsibilidade, tanto na confirmação do espaço dedicado ao turismo quanto no acesso aos locais dos debates, também travou decisões internas de muitas companhias, que esperavam que outras grandes marcas se comprometessem antes de enviar seus executivos.

Receio político e “dilema reputacional” também pesaram

Executivos internacionais relataram um segundo fator: o receio de críticas públicas sobre a presença de empresas, especialmente aéreas, em negociações climáticas. “COP é para governos, não para negócios”, afirmou o porta-voz de uma aérea estrangeira, refletindo uma preocupação recorrente: a de serem acusadas de “greenwashing” ou lobby inadequado, revelou o jornal.

A percepção de que a COP30 seria politicamente mais sensível, por ocorrer na Amazônia e em um país que vive intenso debate ambiental, levou algumas empresas a optar por participar apenas virtualmente ou a concentrar esforços em outros fóruns, como a Climate Week de Nova York.

Quem esteve presente mostrou por que a presença importa

Apesar da baixa adesão, algumas empresas e entidades do turismo, especialmente brasileiras, fizeram questão de estar em Belém, e defenderam publicamente a importância de participar.

Latam: presença ativa e estratégica

Em um post que repercutiu no setor, Jerome Cadier, CEO da Latam Brasil, explicou por que a companhia ampliou em 65% sua malha aérea para Belém e marcou presença ativa na COP.

“Precisamos construir o futuro da aviação junto com quem define políticas públicas e com toda a cadeia. Apontar problemas é fácil. Importante é fazer parte da solução”, escreveu.

A Latam levou debates sobre SAF (combustível sustentável de aviação), transição justa, reciclagem têxtil, além de lançar um Guia de Turismo Sustentável para o Norte do Brasil. Também apoiou a logística da conferência, transportando cargas essenciais e participantes sem custo, em parceria com o governo federal.

Flytour: viagens corporativas e a transição climática

A Flytour participou do AMCHAM COP30 Business Forum, destacando como viagens corporativas se conectam à agenda climática, especialmente em temas como financiamento, descarbonização e inovação. A empresa argumentou que o setor precisa se posicionar sobre eficiência, métricas e governança, áreas diretamente impactadas pela transição energética global.

Braztoa: turismo como agente de transformação

A Braztoa, com forte adesão do público, participou do painel “Turismo e Clima: do compromisso global à transformação local”, no estande Conheça o Brasil. O debate reuniu especialistas para transformar compromissos da agenda climática em ações concretas no território, envolvendo viajantes, empresas e comunidades.

Resorts Brasil: exemplos práticos de descarbonização

A Resorts Brasil levou cases reais de adaptação e mitigação climática dos resorts nacionais, como:

  • operação 100% com energia renovável,
  • reuso total de água,
  • reciclagem em ciclo fechado e aterro zero,
  • áreas preservadas superiores a 500 hectares.

A mensagem central foi clara: o setor só avança quando age em colaboração e com estratégia estruturada, não apenas com projetos pontuais.

Clia e o setor de cruzeiros

A Clia Brasil, ao lado de MSC e Costa Cruzeiros, promoveu debates sobre transição energética, combustíveis alternativos e gestão de portos, pautas críticas em um setor que enfrenta pressão crescente por descarbonização.

Por trás das ausências: o que realmente faltou?

O conjunto de fatores revela três grandes motivos:

1. Logística e infraestrutura insuficientes

Dificuldade de deslocamento, hospedagem limitada e incertezas operacionais com certeza criaram barreiras reais.

2. Estratégia pouco clara para o turismo dentro da COP

Empresas relataram falta de espaço estruturado para apresentar resultados, negociar políticas ou se posicionar sem ruído reputacional. Além disso, até mesmo, para nós, da imprensa, ficou confuso ‘como’ participar de maneira efetiva. Pouca informação, pouca promoção, e além de tudo: pouca clareza. Lembro que em agosto, ao pesquisar sobre os dias do Turismo na COP, diferentes veículos divergiam nas datas. Vale lembrar que viagens como essa demanda planejamento e investimento, e isso se faz com antecedência. Faltou organização e objetividade na comunicação.

3. Receio político, medo de exposição pública e falta de identificação

Críticas sobre emissões aéreas, voos executivos e lobby ambiental podem ter pesado na decisão de ficar de fora. Pouca identificação com o tema ou com o evento também pode ter afastado empresas que poderiam se beneficiar da discussão.

E agora? COP31 promete cenário diferente

A COP31 será realizada em Antalya, na Turquia, um destino turístico consolidado, com ampla oferta hoteleira e conectividade internacional.

O ministro Celso Sabino já afirmou que incentivará maior presença empresarial e enviará um comunicado formal ao governo turco para garantir espaço estratégico ao setor.

Imbsen, do WTTC, acredita que o setor voltará mais forte:

“Não vamos faltar duas vezes.”

*Essa matéria foi produzida com informações do Skift, Ministério do Turismo e materiais enviados por assessorias de empresas que marcaram presença no evento.