
O universo marítimo sempre foi historicamente dominado por homens. Ainda hoje, o número de mulheres no comando de grandes embarcações é extremamente pequeno. Nesse cenário, a trajetória de Serena Melani se destaca como um verdadeiro marco na indústria de cruzeiros.
Capitã do Explora II, da marca de luxo Explora Journeys, pertencente ao MSC Group, ela se tornou a primeira mulher a assumir o comando de um navio dentro do grupo. Sua história é marcada por persistência, enfrentamento de preconceitos e uma paixão profunda pelo mar.
Hoje, com mais de 35 anos de carreira na navegação e mais de uma década como comandante, Melani não apenas conduz um dos mais sofisticados navios de cruzeiro do mundo, mas também representa um símbolo de mudança em uma indústria que ainda caminha rumo à igualdade de gênero.
O M&E entrevistou nos últimos meses, diversas mulheres inspiradoras em celebração ao Dia Internacional da Mulher, comemorado no dia 08 de março, e soltará, ao longo dos próximos dias, uma série de entrevistas com essas personagens tão importantes para o nosso setor, que podem ser conferidas por aqui. O Turismo é feito de mulheres, por mulheres e para mulheres, e é isso que vamos poder observar ao longo da entrevista a seguir.
Cinco anos procurando o primeiro trabalho
O início da carreira não foi simples. Serena lembra que passou cerca de cinco anos tentando conseguir seu primeiro emprego a bordo.
Quando finalmente conseguiu embarcar, os desafios não terminaram. Pelo contrário.
Durante os primeiros anos, ela enfrentou preconceitos e comentários machistas por parte de colegas que não acreditavam que uma mulher pudesse liderar um navio. Em alguns casos, ouviu até superstições antigas do meio marítimo, como a ideia de que mulheres a bordo trariam má sorte.
“Diziam que uma mulher no navio podia trazer azar ou que não seria capaz de liderar”, relembra a capitã.
Com o tempo e a experiência, ela mostrou exatamente o contrário.
Um setor ainda dominado por homens
Mesmo com avanços recentes, a navegação comercial continua sendo um ambiente majoritariamente masculino. Segundo Serena, ainda hoje existem pouquíssimas mulheres comandando navios no mundo.
Globalmente, estima-se que existam cerca de uma dúzia de capitãs na indústria marítima, e, na Itália, ela é a única.
Apesar das conquistas, alguns reflexos dessa desigualdade ainda aparecem no cotidiano. Em certas situações, passageiros já demonstraram surpresa ao descobrir que a comandante do navio era uma mulher. Alguns até evitavam chamá-la de “capitã”, preferindo termos como “madame”.
Para Serena, essas atitudes mostram que houve evolução nas últimas décadas, mas que ainda há caminho a percorrer.
“A mentalidade mudou muito ao longo dos anos, mas ainda não chegamos onde deveríamos”, a capitã conta.
Liderança baseada em mérito e igualdade
Mesmo diante dos desafios, Serena afirma que sempre tentou conduzir sua carreira com foco no mérito e na justiça dentro da equipe.
No comando de um navio, sua principal missão é garantir a segurança de todos a bordo, passageiros e tripulação. Essa responsabilidade envolve decisões difíceis, especialmente quando é necessário priorizar segurança em vez de satisfação imediata dos hóspedes.
Um exemplo comum são regras rígidas de segurança, como a proibição de fumar nas varandas das cabines, algo que alguns passageiros questionam.
“Entre segurança e satisfação do hóspede, a segurança sempre vem primeiro”, afirma a capitã.
Essa postura também se reflete na gestão da tripulação. Serena defende que as oportunidades devem ser oferecidas de forma justa, independentemente de gênero, nacionalidade ou origem.
Uma carreira construída do zero
Outro aspecto marcante da história da capitã é que ela não veio de uma família ligada ao mar. Diferentemente de muitos profissionais do setor, Serena não tinha conexões na indústria marítima.
Além disso, enfrentou outras barreiras que, segundo ela mesma brinca, poderiam ser consideradas “desvantagens”: ser mulher, italiana com sotaque em inglês e não se encaixar no estereótipo de liderança tradicional esperado por alguns.
Mesmo assim, construiu sua carreira do zero, com determinação e foco.
“Eu comecei sem nenhuma conexão. Acredito que a nossa vida está nas nossas próprias mãos”.
Os desafios do comando de cruzeiros no mar
Comandar um navio de cruzeiro envolve uma série de desafios que vão muito além da navegação.
A capitã precisa supervisionar uma verdadeira “cidade flutuante”, com centenas de tripulantes e milhares de passageiros. Há equipes responsáveis por segurança, engenharia, hotelaria, gastronomia, manutenção e inúmeras outras áreas que precisam funcionar em perfeita sincronia.
Além disso, o ambiente marítimo pode apresentar desafios naturais significativos, dependendo da região.
Entre os destinos mais desafiadores para navegar, Serena cita áreas como o rio São Lourenço, o rio Amazonas e rotas no sul da África. Em contraste, destinos como o Alasca, embora complexos pelas condições climáticas e presença de gelo, estão entre seus favoritos pela beleza natural.
Um símbolo para novas gerações
Serena reconhece que sua posição de capitã pode servir de inspiração para jovens que sonham em trabalhar no mar, especialmente mulheres.
No entanto, ela acredita que o mais importante não é tentar seguir exatamente o caminho de alguém, mas desenvolver a própria identidade profissional.
“Se alguém vê outra pessoa ocupando um cargo que antes parecia impossível, isso mostra que é possível. Mas cada um precisa construir o próprio caminho”.
Hoje, comandando o Explora II e liderando centenas de profissionais a bordo, Serena Melani representa não apenas uma conquista individual, mas também um passo importante rumo a uma indústria marítima mais diversa e inclusiva.
E sua mensagem para quem deseja chegar longe é simples: persistência, foco e coragem para seguir em frente, mesmo quando o caminho parece mais difícil.







