Fim da escala 6x1: empresas de turismo avaliam impactos e desafios da mudança
Paulo Mélega, vice-presidente da Atrio (Rogério Vieira/Divulgação)

A aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala 6×1 pelo Senado Federal, em 14 de outubro, amplia o debate sobre a organização das jornadas de trabalho no Brasil. No turismo, empresas avaliam como uma eventual mudança nas regras poderá afetar as escalas das equipes, os custos operacionais e a prestação de serviços. Experiências de empreendimentos que já adotaram a escala 5×2 também ajudam a dimensionar os desafios e os possíveis benefícios de uma nova organização do trabalho.

Em um setor que reúne atividades com funcionamento diário e, em muitos casos, atendimento 24 horas, a adequação das jornadas exige planejamento. Ao mesmo tempo, a atração e a retenção de profissionais estão entre as questões que mobilizam empresas da cadeia turística.

A Atrio, responsável pela gestão de mais de 100 propriedades hoteleiras, já vinha discutindo mudanças nas escalas como parte de seu planejamento estratégico. A companhia também implementou um projeto-piloto em dois empreendimentos. “Essa era uma decisão esperada e que, sem dúvida, traz impactos para o setor. Afinal, a hotelaria, como atividade essencialmente prestadora de serviços, depende de pessoas, e tudo o que impacta essa dimensão tem repercussão direta no negócio”, afirma Paulo Melega, vice-presidente da Atrio.

Na avaliação do executivo, os efeitos financeiros tendem a ser mais expressivos no curto prazo. Ele também aponta que a tecnologia e os ganhos de produtividade podem contribuir para amenizar parte desses custos ao longo do tempo. “Nos médio e longo prazos, algumas questões que hoje representam aumento direto de custos poderão ser amenizadas com o uso de tecnologia e aumento de produtividade”, diz.

Custos e organização das equipes entram no debate

Para a Atrio, os efeitos de uma eventual mudança variam conforme o porte, as características operacionais e a sazonalidade de cada hotel. Entre os pontos que exigem atenção estão a reorganização das escalas, para ampliar os períodos de descanso, e a redução da jornada semanal prevista na proposta, de 44 para 42 horas inicialmente, com perspectiva de chegar a 40 horas em dois anos, conforme o texto apresentado no material.

“As duas mudanças pressionam os custos com mão de obra, pois exigem um número maior de pessoas para garantir a cobertura das escalas de trabalho. Como se trata da principal linha de custo operacional de um hotel, o impacto é relevante”, avalia Melega.

Para as empresas, um dos desafios da mudança será reorganizar as equipes para garantir a continuidade de serviços como recepção, governança, manutenção e alimentação. A depender das características de cada operação, essa adaptação poderá exigir novas contratações, redistribuição de tarefas e revisão dos processos internos. Ao mesmo tempo, a mudança também coloca em discussão os possíveis ganhos relacionados às condições de trabalho. A melhoria da qualidade de vida dos profissionais é apontada como um fator que pode favorecer a retenção de talentos, a estabilidade das equipes e a qualidade do atendimento aos hóspedes.

Tecnologia e produtividade podem ajudar na adaptação

A adoção de ferramentas tecnológicas aparece entre as alternativas avaliadas para reorganizar as operações. Sistemas de automação e gestão podem otimizar determinadas tarefas e contribuir para a produtividade, embora os resultados dependam das características de cada atividade.

Em funções que exigem contato direto com hóspedes e atendimento presencial, por exemplo, a tecnologia pode apoiar o trabalho, mas não substitui necessariamente a presença de profissionais. Por isso, a adaptação pode exigir uma combinação de investimentos, revisão de processos e planejamento de pessoal.

Danila Bernardi, sócia-diretora da área de BPO Financeiro da Athros Auditoria e Consultoria, destaca que as consequências de uma eventual mudança serão diferentes entre os segmentos econômicos. “Os impactos serão diferentes conforme o setor. Empresas que operam sete dias por semana, como hotéis, restaurantes, hospitais e parte do comércio, precisarão avaliar cuidadosamente suas escalas. A redução da jornada sem diminuição salarial pode exigir novas contratações e elevar o custo da folha. Dependendo da atividade e das margens do negócio, parte desses custos poderá ser repassada aos preços. É uma transição que exige planejamento e análise individualizada”, avalia Danila.

Fim da escala 6x1: empresas de turismo avaliam impactos e desafios da mudança
Danila Bernardi, sócia-diretora da área de BPO Financeiro da Athros Auditoria e Consultoria (Divulgação/BPO)

A especialista também chama atenção para a relação entre automação, produtividade e emprego. Embora a tecnologia possa ajudar a compensar parte das horas de trabalho reduzidas, seus efeitos variam conforme a atividade e podem alterar tanto o perfil quanto a quantidade de profissionais necessários. Nesse cenário, Danila afirma que o planejamento financeiro e a revisão dos processos operacionais serão importantes para que as empresas identifiquem alternativas compatíveis com suas necessidades.

Grupo Schultz já adota escala 5×2 para a maior parte da equipe

No Grupo Schultz, a maior parte dos colaboradores já trabalha na escala 5×2. A exceção são os profissionais que participam, em sistema de rodízio, do plantão de vendas realizado aos sábados. A companhia também prepara uma avaliação jurídica para orientar os próximos passos diante das mudanças legislativas.

Segundo Ana Santana, diretora-geral do grupo, a empresa vê aspectos positivos na proposta, tanto para os profissionais quanto para a organização. “Nosso time jurídico está finalizando um plano de ação que orientará os próximos passos, mas o fato é que acreditamos que a mudança seja positiva para os colaboradores e para a empresa”, afirma.

Fim da escala 6x1: empresas de turismo avaliam impactos e desafios da mudança
Ana Santana, diretora-geral do Grupo Schultz (Divulgação/Schultz)

A experiência do grupo ilustra que parte das empresas do turismo já trabalha com modelos diferentes da escala 6×1. As possibilidades de adaptação, contudo, dependem das características de cada operação e das funções desempenhadas pelos profissionais.

Hotel que adotou escala 5×2 reduziu turnover, mas teve aumento na folha

Uma experiência que ajuda a contextualizar o debate é a do Tryp by Wyndham São Paulo Paraíso. O hotel, que possui 263 apartamentos na capital paulista, adotou a escala 5×2 em fevereiro de 2024, antes da atual discussão sobre o fim da escala 6×1 ganhar dimensão nacional.

A mudança foi implementada em todos os departamentos e contempla atualmente 49 colaboradores. Segundo os dados divulgados pelo empreendimento, o turnover anual caiu de 6% para 2,5%, uma redução relativa de aproximadamente 58%. No mesmo contexto, a reorganização das escalas representou um aumento de cerca de 10% na folha de pagamento.

Os números mostram dois aspectos da experiência: a redução da rotatividade de profissionais e o aumento das despesas com pessoal. Os resultados são específicos do hotel e não permitem concluir que outras empresas terão necessariamente os mesmos efeitos.

Patrícia Garcia, gerente-geral do Tryp by Wyndham São Paulo Paraíso, afirma que a decisão foi incorporada à estratégia de gestão de pessoas, com foco na qualidade de vida, na atração e na retenção de profissionais. “Quando decidimos adotar a escala 5×2, sabíamos que haveria um impacto financeiro e que precisaríamos reorganizar a operação. Mas também entendíamos que a dificuldade de atrair e reter profissionais era um dos grandes desafios da hotelaria. Hoje, com a redução do turnover anual de 6% para 2,5%, temos um indicador concreto de que investir na qualidade de vida das equipes pode trazer benefícios para o negócio. O custo precisa ser considerado, mas não pode ser analisado isoladamente dos ganhos em estabilidade, engajamento e qualidade do atendimento”, afirma Bruno Guimarães.

A administração também informa que os indicadores de satisfação dos hóspedes aumentaram, associando o resultado à melhora no atendimento.