
A combinação de cirurgias plásticas com hospedagem e serviços turísticos tem atraído pacientes para destinos internacionais, especialmente a Turquia, conhecida pela oferta de procedimentos a preços mais baixos. O crescimento desse mercado, no entanto, acende um alerta entre profissionais de saúde e especialistas em direito médico. Além dos riscos inerentes às intervenções, a distância do país de origem pode dificultar o acompanhamento pós-operatório, o atendimento em situações de emergência e até mesmo a busca por reparação em caso de complicações.
O fenômeno, conhecido como turismo estético, também ganha espaço na América Latina. Países como México e Colômbia atraem estrangeiros com ofertas que combinam procedimentos médicos e serviços turísticos. No México, cerca de 35% das intervenções estéticas realizadas em 2023 foram destinadas a pacientes internacionais, principalmente dos Estados Unidos, Canadá e Espanha.
No Brasil, o cenário também merece atenção. Embora o país receba estrangeiros interessados em tratamentos estéticos, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) alerta para a expansão de clínicas não certificadas, muitas vezes impulsionadas pela divulgação nas redes sociais. Segundo a entidade, a busca por preços mais baixos pode levar pacientes a estruturas inadequadas e sem o acompanhamento médico especializado necessário.
A preocupação com os riscos das cirurgias realizadas no exterior também motivou uma iniciativa do British College of Aesthetic Medicine, no Reino Unido. A entidade lançou uma lista de recomendações como parte da campanha “Vet it before you get it” (Verifique antes de fazer, em tradução livre), com orientações para quem pretende contratar procedimentos estéticos fora de seu país.
Entre os cuidados sugeridos estão a verificação das qualificações do cirurgião, a identificação dos serviços de emergência disponíveis nas proximidades da clínica e a consulta às condições dos seguros e coberturas do profissional responsável. A entidade também recomenda considerar os riscos associados à viagem e planejar adequadamente o período de recuperação.
Nora Nugent, cirurgiã plástica consultora e ex-presidente da British Association of Aesthetic Plastic Surgeons, ressalta que os riscos não se restringem ao momento da operação. Segundo ela, as viagens aéreas podem aumentar a possibilidade de formação de coágulos sanguíneos, enquanto a distância dificulta o acesso ao médico responsável caso surjam complicações após o retorno para casa. “Na verdade, os riscos começam no momento em que você entra no avião e continuam depois que retorna para casa, até estar completamente recuperado e fora do período de risco de coagulação”, afirmou.
Preço e pacotes ampliam a procura
O custo é um dos principais atrativos para quem opta por realizar cirurgias plásticas no exterior. Segundo Nugent, destinos como a Turquia oferecem procedimentos por valores significativamente inferiores aos praticados no Reino Unido. A diferença está relacionada, entre outros fatores, ao custo de vida britânico e às despesas mais elevadas com seguros e indenizações profissionais.
A economia inicial, entretanto, pode deixar de representar uma vantagem quando surgem complicações. Além dos gastos com tratamentos e internações, o paciente pode precisar realizar novas viagens para receber assistência médica. Há ainda obstáculos relacionados à responsabilização de clínicas e profissionais que atuam em outros países, o que pode tornar a busca por reparação mais difícil.
Chrissie Wolfe, fundadora e diretora-executiva do escritório especializado em negligência médica Lupa Law, afirma que processos envolvendo intervenções realizadas no exterior podem ser especialmente complexos. Mesmo quando há concessão de indenização, os valores podem ser inferiores aos praticados em ações semelhantes no Reino Unido. “A Turquia é, de longe, o destino mais popular para cirurgias plásticas, mas também é, sem dúvida, o mais difícil do ponto de vista jurídico”, afirmou.
Outro ponto de atenção, segundo a advogada, são as clínicas que oferecem pacotes com múltiplas intervenções ou promoções por tempo limitado. Esse modelo pode estimular a contratação de cirurgias adicionais sem que o paciente tenha tempo suficiente para avaliar a real necessidade e os riscos envolvidos.
Wolfe relatou o caso de uma mulher que viajou à Turquia para realizar uma abdominoplastia, mas acabou convencida a se submeter a um procedimento mais amplo, conhecido como “mummy makeover”, que também incluía uma elevação das mamas. Após a operação, a paciente retornou ao país de origem com uma infecção grave e perdeu a maior parte da mama esquerda e toda a mama direita. “Quando algo dá errado, é incrivelmente difícil corrigir”, afirmou.
A associação das intervenções a experiências de férias é outra preocupação. Para Wolfe, a divulgação de pacotes que incluem hospedagem e outros atrativos turísticos pode transmitir uma percepção de facilidade e conveniência que não corresponde à complexidade de uma cirurgia plástica. “Isso afasta a atenção do paciente da seriedade do que ele está realmente prestes a enfrentar”, avaliou.
SBCP reforça cuidados na escolha da clínica
Diante desse cenário, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica recomenda que a escolha do profissional e da estrutura médica seja criteriosa, independentemente de a intervenção ser realizada no Brasil ou no exterior.
Entre as orientações estão procurar cirurgiões associados à SBCP ou à entidade equivalente no país de destino, verificar se a clínica possui infraestrutura regulamentada e certificada e assegurar a realização de avaliações pré e pós-operatórias adequadas. A entidade destaca especialmente a importância de planejar a assistência após a cirurgia, sobretudo para quem pretende retornar ao país de origem ainda durante o período de recuperação.
A recomendação é que preço e serviços incluídos no pacote não sejam os únicos critérios considerados na decisão. A qualificação do cirurgião, a estrutura disponível para atendimentos de emergência e a garantia de acompanhamento médico são fatores fundamentais para a segurança do paciente.






