
LONDRES – Em um mercado cada vez mais competitivo, no qual destinos, empresas e profissionais precisam escolher quais feiras internacionais receberão seus investimentos, a WTM aposta na qualidade das conexões comerciais como principal diferencial. A estratégia da RX, organizadora do evento, passa pela qualificação dos compradores, plataformas de agendamento de reuniões e expansão de seu portfólio para mercados com alto potencial de crescimento.
Em entrevista ao Mercado & Eventos durante o último dia de WTM London 2026, Jonathan Heastie, diretor de portfólio da RX para os eventos globais de turismo, explicou como a empresa trabalha para manter a relevância de suas feiras e quais são os próximos movimentos da companhia.
Com 46 anos de história, a WTM London é o principal evento do portfólio e deu origem às demais feiras da marca pelo mundo. Atualmente, a RX também organiza a WTM Latin America, em São Paulo, a Arabian Travel Market (ATM), em Dubai, e a WTM Africa, na Cidade do Cabo. A empresa ainda iniciou uma nova frente de atuação com eventos Spotlight, direcionados a mercados específicos.
A proposta é identificar países que apresentam oportunidades particulares de crescimento e criar plataformas comerciais voltadas a esses mercados. A primeira iniciativa foi realizada na Arábia Saudita, em setembro, e reuniu 7 mil participantes, mesmo diante dos desafios enfrentados pela região. O próximo evento será realizado em março de 2027, em Nova Délhi, na Índia – destino que cresce exponencialmente.
Segundo Heastie, a escolha desses mercados está relacionada ao potencial de expansão do turismo e às oportunidades de negócios. Na Arábia Saudita, o interesse envolve tanto o crescimento do país como mercado emissor de viajantes de alto poder aquisitivo quanto os investimentos em infraestrutura turística. Já a Índia se destaca pelo avanço econômico, pela expansão da conectividade e pelo crescimento de seu mercado de viagens internacionais.
“Quando as economias crescem, mais pessoas viajam. As famílias passam a ter renda para viajar domesticamente, depois regionalmente e, por fim, internacionalmente”, explicou o executivo.
A proposta do evento na Índia também é conectar destinos do país a compradores internacionais e, ao mesmo tempo, aproximar fornecedores globais dos viajantes indianos.
Qualidade dos compradores como diferencial
Questionado sobre como a WTM se diferencia em um cenário com tantas feiras internacionais de turismo, Heastie reconheceu que as propostas dos eventos são, em muitos aspectos, semelhantes. Para ele, a vantagem da RX está na experiência acumulada ao longo de quase cinco décadas, na rede global de relacionamentos e na capacidade de promover encontros comerciais relevantes.
Um dos principais pilares dessa estratégia é a qualificação dos compradores. A empresa trabalha para selecionar profissionais com potencial efetivo de negócios e utiliza plataformas de agendamento para que expositores e visitantes possam organizar reuniões antes mesmo de chegar à feira.
“Existe uma importância enorme em estabelecer conexões antes mesmo de você sair do Brasil, por exemplo, para vir até aqui. Por meio das plataformas de reuniões e agendamento, é possível garantir encontros importantes e depois acrescentar a magia do que acontece espontaneamente durante o evento”, afirmou.
O executivo também destacou que a RX busca maximizar o retorno dos investimentos feitos pelos expositores, que dedicam tempo e recursos para participar das feiras. Para isso, procura elevar o nível de exigência na seleção dos compradores e garantir que os encontros tenham qualidade comercial.
Na WTM London 2026, os primeiros retornos recebidos pela organização apontaram justamente para a qualidade dos profissionais presentes. Heastie contou que um expositor relatou ter realizado reuniões muito curtas, de aproximadamente dez minutos, mas que isso não representava um problema: todos os interlocutores eram compradores efetivamente interessados e preparados para negociar.
Apesar da avaliação positiva, o diretor ressaltou que o impacto comercial da feira só poderá ser mensurado de maneira mais completa nos meses seguintes, quando será possível acompanhar os desdobramentos dos encontros realizados em Londres.
Brasil e América Latina no portfólio global

Ao falar sobre a WTM Latin America, Heastie ressaltou a importância crescente da região tanto como mercado emissor quanto como destino turístico internacional. Para ele, o Brasil e os demais países sul-americanos têm muito a oferecer em termos de cultura, gastronomia, patrimônio e experiências conectadas às comunidades locais.
O executivo também demonstrou otimismo com o futuro da feira latino-americana, que completou 13 anos. Na avaliação dele, a próxima década será especialmente importante para o desenvolvimento do evento e para o fortalecimento das conexões comerciais na região.
A estratégia global da RX também envolve estimular práticas mais responsáveis no turismo. Heastie observou que, depois da pandemia, os viajantes passaram a demonstrar maior interesse por experiências significativas, com conexão cultural e interação com as comunidades dos destinos visitados.
“Os viajantes não querem simplesmente chegar a um destino e consumir o que ele oferece. Eles querem se conectar com o lugar, estimular os sentidos e construir memórias que levem consigo”, afirmou. Para o executivo, as feiras também precisam dar visibilidade a experiências que considerem os impactos do turismo e promovam uma relação mais sustentável entre visitantes e comunidades locais.
A complexidade de organizar uma feira global
Sobre os desafios de organizar um evento da dimensão da WTM London, Heastie apontou a complexidade operacional e a necessidade de mobilizar equipes de diferentes partes do mundo. A montagem da feira, segundo ele, exige uma estrutura comparável à construção de uma cidade, transformando pavilhões vazios em ambientes com milhares de profissionais, estandes, atrações e experiências.
A RX organiza aproximadamente 330 eventos por ano, em cerca de 40 a 45 países e diferentes setores econômicos. No total, suas feiras recebem aproximadamente 7 milhões de visitantes e contam com cerca de 140 mil expositores anualmente.
Apesar da estrutura e da experiência operacional da empresa, o diretor reforçou que o resultado final depende também da participação dos destinos e expositores. No turismo, são as pessoas, a cultura, o patrimônio e a criatividade de cada lugar que dão identidade aos eventos.
“É uma combinação entre oferecer uma plataforma forte e permitir que os destinos tragam sua própria magia. São eles que transformam os pavilhões em espaços vibrantes, com experiências, gastronomia, cultura e criatividade”, concluiu.
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