TravelGate
Luisa Camara, CEO da Travelgate durante a WTM London 2026

LONDRES – A Travelgate quer avançar na padronização de conteúdo hoteleiro e transformar descrições, imagens e informações dos hotéis em parte integrada ao processo de distribuição de tarifas. A iniciativa, desenvolvida a partir da aquisição da empresa britânica AO, é uma das prioridades da companhia para 2027, segundo Luisa Camara, CEO da Travelgate.

A proposta é aplicar ao conteúdo a mesma lógica que a Travelgate já utiliza na conectividade de tarifas: reunir informações de diferentes fornecedores, organizá-las e entregá-las aos clientes de acordo com suas necessidades. Hoje, quando uma operadora se conecta à plataforma, recebe o conteúdo disponibilizado por cada fornecedor sem tratamento ou padronização. Cabe ao próprio cliente comparar descrições, selecionar imagens e decidir quais informações utilizar.

Com a integração da tecnologia da AO, a Travelgate pretende assumir parte desse trabalho. O conteúdo poderá ser filtrado, organizado e padronizado conforme os requisitos de cada cliente. Também será possível utilizar inteligência artificial para adaptar descrições à linguagem e ao padrão editorial de cada empresa.

“Um grande passo da Travelgate no próximo ano realmente é conseguir padronizar a parte de conteúdo como a gente fez com a parte de tarifas”, afirmou Luisa.

Conteúdo integrado à distribuição

A aquisição da AO, empresa sediada no Reino Unido e especializada em gestão de conteúdo, ocorreu no ano passado. A companhia desenvolvia uma plataforma para organizar informações fornecidas pelos próprios clientes, como descrições de quartos e fotografias. A Travelgate identificou a possibilidade de combinar essa tecnologia com sua estrutura de conectividade hoteleira.

Na prática, uma operadora que trabalha com diferentes fornecedores poderá receber informações sobre um mesmo hotel já organizadas e adaptadas às suas especificações, em vez de lidar separadamente com os formatos e descrições de cada parceiro.

A solução foi lançada há cerca de três meses e já conta com alguns clientes em utilização, segundo a CEO. A meta para 2027 é ampliar essa adesão e fazer com que o conteúdo passe a integrar o fluxo de reservas com a mesma naturalidade das tarifas.

A empresa também utiliza inteligência artificial internamente. De acordo com Luisa, cerca de 80% do código da Travelgate é escrito por agentes de IA, enquanto os desenvolvedores atuam principalmente na gestão desses agentes. Para os clientes, porém, o principal benefício está na capacidade de organizar e padronizar tarifas e conteúdo por meio da infraestrutura da plataforma.

Conectividade como especialidade

Fundada em 2012 por Pedro Camara, irmão de Luisa, em Mallorca, na Espanha, a Travelgate é especializada em conectividade de hospedagem. Luisa entrou na empresa em 2016, inicialmente na área comercial, e acompanhou o crescimento do negócio. Em 2024, a companhia foi adquirida pelo grupo Travelsoft, dando início a um processo de transição de liderança. Pedro passou a se dedicar a outros projetos dentro do grupo, enquanto Luisa assumiu o comando da operação.

A executiva reforça que a Travelgate mantém uma atuação especializada, diferente de empresas que oferecem plataformas mais amplas de gestão de viagens. A companhia não trabalha com reservas, transfers, atividades ou voos. Seu foco é conectar fornecedores de hospedagem a distribuidores, permitindo que estes acessem o inventário e as tarifas de diferentes parceiros.

“Somos muito especializados, só fazemos conectividade. Não temos uma plataforma de reservas, não temos back-end e não gerenciamos reservas. Nossa especialidade é somente conectividade de hotéis”, explicou.

Nesse modelo, a Travelgate trabalha com diferentes plataformas de distribuição e gestão, como Juniper, Kangaroo e Infotera, sem competir diretamente com elas em outras etapas da operação.

Brasil e América Latina

Na América Latina, a estratégia de expansão da Travelgate está ligada à atuação da empresa-irmã Travel Compositor, que possui presença relevante entre plataformas de reservas no Brasil e em outros mercados da região. Por meio dessas conexões, os clientes da empresa já acessam os fornecedores integrados à Travelgate.

O próximo movimento, segundo Luisa, está menos relacionado à conquista direta de novos clientes e mais à ampliação da oferta de produtos disponíveis na plataforma, especialmente no Brasil e na América do Sul. A companhia identifica interesse de clientes europeus e asiáticos por produtos da região, mas encontra fornecedores menores que ainda não dispõem de tecnologia para se conectar aos grandes distribuidores.

Para atender a essa demanda, a Travelgate desenvolveu o Core-X, solução voltada a fornecedores sem API. A ferramenta permite incorporar ao ambiente de distribuição produtos de empresas menores, como DMCs que possuem contratos próprios e tarifas competitivas, mas não contam com estrutura tecnológica para realizar integrações.

O projeto é resultado de uma joint venture com a empresa argentina Xcale, especializada em tecnologia para carregamento e gestão de contratos. Enquanto a parceira fornece a solução para organizar os contratos, a Travelgate oferece a conectividade e a distribuição para sua rede de clientes.

A executiva explicou que a iniciativa surgiu também a partir de indicações do próprio mercado. Clientes da Travelgate identificam fornecedores com os quais gostariam de trabalhar, mas que não possuem tecnologia para se conectar. A empresa, então, viabiliza a integração e permite que esses produtos cheguem aos distribuidores.

“O que queremos fazer é crescer pela parte de produto. A parte de clientes já avança por meio das conexões que temos com nossos parceiros”, afirmou.

Sinergia dentro da Travelsoft

A integração com o grupo Travelsoft também amplia as oportunidades de distribuição e compartilhamento de fornecedores. Além da Travelgate, o grupo reúne empresas de tecnologia e outras operações ligadas ao turismo, incluindo a britânica Atcore, que já trabalhava com a Travelgate antes da aquisição.

Entre os clientes da Atcore está a EasyJet Holidays, que utiliza a conectividade da Travelgate com channel managers para realizar contratações diretas. A executiva também citou empresas do grupo na Alemanha e na Romênia, além da publicação britânica Travolution e da organizadora de eventos Eventiz.

A ideia é que a Travelgate funcione como o ponto de conectividade de hospedagem para as demais empresas do grupo. Dessa forma, os clientes dessas plataformas podem acessar os fornecedores conectados à rede da companhia, enquanto os parceiros da Travelgate também ganham novas possibilidades de distribuição.

Para 2027, além de ampliar a adoção da solução de conteúdo, a empresa pretende continuar agregando fornecedores e padronizando tarifas. O objetivo é consolidar a integração entre inventário, preços e informações hoteleiras em uma mesma etapa do processo de distribuição.

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