
As eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, conhecidas como midterms, colocaram sete brasileiros no Legislativo estadual americano. Os candidatos conquistaram cadeiras em Massachusetts, Flórida, Connecticut e Nevada, ampliando a participação de pessoas nascidas no Brasil na política local. Todos os eleitos são integrantes do Partido Democrata, e parte deles representa localidades que concentram comunidades brasileiras estabelecidas há décadas.
Os Estados Unidos estão entre os principais destinos internacionais dos brasileiros e mantêm uma comunidade brasileira numerosa em seu território. Embora a eleição de representantes brasileiros não signifique mudanças imediatas nas políticas de entrada de turistas ou na operação do setor, a presença de parlamentares com origem no Brasil pode ampliar a visibilidade das demandas dessa população e fortalecer os vínculos entre as comunidades.
Nos Estados Unidos, as assembleias estaduais elaboram leis aplicáveis aos respectivos estados, desde que não contrariem a Constituição americana. Questões como concessão de vistos, controle de fronteiras e regras federais de imigração não são definidas individualmente pelos deputados estaduais.
Os representantes podem participar de discussões sobre políticas públicas estaduais que influenciam o cotidiano das comunidades, incluindo educação, serviços públicos, desenvolvimento econômico e iniciativas locais. Esses temas também podem repercutir indiretamente no ambiente em que vivem brasileiros que recebem familiares, participam de eventos, mantêm negócios ou circulam entre os dois países.
Cenário do turismo brasileiro nos EUA
Segundo dados divulgados pelo Migration Policy Institute (MPI), os Estados Unidos abrigavam aproximadamente 725 mil imigrantes nascidos no Brasil em 2024. Considerando também os residentes que declararam ascendência brasileira, a diáspora chegava a cerca de 950 mil pessoas. A Flórida concentrava 23% dos imigrantes brasileiros, Massachusetts reunia 17% e a Califórnia, 9%. Os três estados somavam metade dessa população.
Em 2025, os Estados Unidos receberam 1.916.565 visitantes do Brasil, mantendo o país como o sexto maior mercado emissor internacional para o destino, segundo dados apresentados pela Embaixada e Consulados dos EUA no Brasil. O volume representou crescimento de 0,3% em relação a 2024.
Além das viagens de lazer, o deslocamento entre os dois países envolve visitas familiares, negócios, estudos e eventos. A existência de representantes que conhecem a realidade das comunidades brasileiras pode contribuir para ampliar o diálogo sobre questões que afetam moradores e visitantes.
A maior concentração de brasileiros eleitos está em Massachusetts, onde quatro candidatos conquistaram cadeiras na Câmara dos Representantes estadual: Priscila Sousa, Rita Mendes, Danillo Sena e Lorena Betts. O estado é conhecido pela presença de comunidades brasileiras, especialmente em cidades como Framingham e Brockton.
Outros três brasileiros venceram em diferentes regiões. Felipe Sousa-Lazaballet foi eleito pela primeira vez na Flórida, estado de tradição republicana. Farley Santos conquistou a reeleição em Connecticut, enquanto Elaine Marzola também garantiu a permanência na Assembleia de Nevada.
Conheça os sete eleitos:
Felipe Sousa-Lazaballet – Flórida

Aos 26 anos, recebeu autorização para trabalhar por meio do DACA (Deferred Action for Childhood Arrivals), programa criado durante o governo Barack Obama para oferecer proteção temporária contra a deportação a determinados imigrantes que chegaram ao país ainda crianças. Em 2021, depois de obter o green card, conquistou a cidadania americana.
Antes de ingressar na política eleitoral, trabalhou durante cinco anos na administração do prefeito de Orlando, Buddy Dyer. Também participou de organizações voltadas à defesa dos direitos dos imigrantes e da comunidade LGBTQIAPN+. Ele conta que a própria trajetória influenciou sua decisão de disputar um cargo público.
“Cheguei aos Estados Unidos com 14 anos, literalmente com uma mala, um coração cheio de sonhos e nada mais. Foi justamente por causa desse processo tão difícil, de ser uma pessoa imigrante nesse país, que me envolvi com a política. Para ajudar as pessoas e buscar mudanças sociais. Minha história de superação indica que sei o que é sofrer e ter que lutar pelo sonho americano.”
Priscila Sousa – Massachusetts

Nascida em Ipatinga, Minas Gerais, Priscila Sousa tem 38 anos e se mudou para os Estados Unidos aos sete. A parlamentar obteve o green card em 2004, aos 16 anos, e posteriormente conquistou a cidadania americana. Em 2009, concluiu a formação em Ciência Política, Relações Internacionais e Inglês pela Simmons University. Representante do 6º distrito de Middlesex desde janeiro de 2023, Priscila conquistou a reeleição para um novo mandato de dois anos. Em entrevista ao g1, ela comenta que percebe mudanças no tratamento dado aos imigrantes desde o retorno de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos.
“Quanto à discriminação por parte dos eleitores ou da comunidade em geral, infelizmente, vimos isso acontecer mais depois da eleição do presidente Donald Trump. Certas ideologias, mentalidades e um determinado desprezo pelo estrangeiro imigrante… Mas continuamos lutando.”
Rita Mendes – Massachusetts

Na época, não falava inglês. A família se estabeleceu em Brockton, cidade que atualmente representa na Câmara estadual. Antes de chegar ao Legislativo, em janeiro de 2023, Rita foi eleita para o Conselho Municipal, em 2019. Aos 42 anos, possui formação em Direito e trabalha como advogada e corretora de imóveis. Assim como Priscila Sousa, integra a Câmara dos Representantes de Massachusetts desde 2023.
Danillo Sena – Massachusetts

Ele chegou aos Estados Unidos em 2001, aos 14 anos, para morar com a mãe em Acton, município localizado no 37º distrito de Middlesex, região que representa. Assim como Felipe Sousa-Lazaballet, Danillo foi beneficiário do DACA. Em 2018, aos 31 anos, obteve o green card e conquistou a cidadania americana.
Lorena Betts – Massachusetts

Ela vive nos Estados Unidos há 15 anos e chegou ao país trabalhando como babá. Antes de emigrar, atuava na área de enfermagem no Brasil. Nos Estados Unidos, estudou Ciências Políticas e passou a participar de iniciativas comunitárias, com atenção às dificuldades enfrentadas pelos imigrantes. Casada e mãe de três filhos, Lorena também utiliza sua trajetória para dialogar com a comunidade brasileira.
Após a vitória, publicou uma mensagem de agradecimento nas redes sociais. “Estou profundamente honrada e incrivelmente grata por ter conquistado sua confiança e seu voto. Esta campanha foi sobre o poder das pessoas, a importância de cada voz e o que podemos realizar quando nos unimos. Nossa maior força está na disposição de apoiar uns aos outros. Trabalharei diariamente para continuar merecendo a confiança depositada em mim, ouvir suas vozes e representar nossa comunidade.”
Farley Santos – Connecticut

No cargo desde 2023, ele chegou aos Estados Unidos aos sete anos e viveu inicialmente como imigrante indocumentado. É casado e tem uma filha. Após a confirmação da vitória, o parlamentar destacou sua relação com a cidade que representa e com a comunidade que acompanhou sua trajetória.
“Como um jovem imigrante que cresceu nesta cidade, jamais imaginei que um dia teria o privilégio de representar a própria comunidade que deu a mim e à minha família a oportunidade de alcançar o sonho americano. Nunca me esqueci de onde vim, onde fui criado, por quem luto ou por que sirvo. A eleição pode ter terminado, mas o trabalho continua. E eu também. Continuarei presente, lutando com todas as minhas forças e entregando resultados para Danbury.”
Elaine Marzola – Nevada

Representante do 21º distrito de Nevada desde 2021, conquistou sua terceira reeleição e ocupa um dos cargos de liderança da Assembleia estadual. Sua formação acadêmica inclui bacharelado em Estudos Femininos pela Universidade de Nevada, concluído em 2006, e graduação em Direito pela Faculdade Thomas M. Cooley, vinculada à Universidade de Michigan, em 2010.
O que a eleição pode representar para o turismo entre Brasil e Estados Unidos?
A presença de brasileiros no Legislativo estadual americano abre espaço para discutir a relação entre representatividade política, comunidades de imigrantes e atividades econômicas ligadas à circulação de pessoas.
De acordo com levantamento do National Travel and Tourism Office (NTTO), órgão vinculado ao Departamento de Comércio dos Estados Unidos, 1,91 milhão de brasileiros visitaram o país em 2024. Os gastos desse público chegaram a US$ 9,84 bilhões, incluindo despesas com passagens aéreas, enquanto as visitas de americanos ao Brasil movimentaram US$ 1,28 bilhão em gastos.
Em 2025, o fluxo brasileiro chegou a 1,916 milhão de visitantes, segundo informações apresentadas pela Embaixada dos Estados Unidos no Brasil. O mercado brasileiro permaneceu entre os principais emissores internacionais para o destino, mesmo em um período de retração das chegadas internacionais aos Estados Unidos.
*Com informações de G1.







