Fora
Lígia Vargas, apresentada e idealizada do programa “Fora do Mapa” em Lisboa (Divulgação/Fora do Mapa)

Sair do roteiro convencional sem necessariamente deixar de lado os principais pontos turísticos. Essa é a proposta do Fora do Mapa, série semanal do canal Travel Plus apresentada e idealizada por Lígia Vargas, que busca revelar os destinos a partir de suas histórias, tradições, gastronomia, personagens e experiências de uma maneira diferente de apresentar destinos turísticos. Em vez de se concentrar apenas nos cartões-postais, o programa busca revelar histórias, personagens, gastronomia, tradições e experiências que ajudam a explicar a identidade de cada lugar.

A primeira temporada tem seis episódios de 30 minutos e percorreu Lisboa, Alentejo, Douro, Porto, Guimarães e trechos da Rota do Românico, em Portugal. Lígia Vargas conversou com o Mercado & Eventos sobre a criação da série, o conceito de “sair do mapa” e os próximos passos do programa.

Mercado e Eventos – Como nasceu o “Fora do Mapa”?

Lígia Vargas – O projeto nasceu de uma inquietação muito pessoal. Como historiadora da arte, comunicadora e viajante, sempre me interessou aquilo que existe para além da imagem mais conhecida de um lugar: as histórias que permanecem nas ruas, os personagens locais, os hábitos, a gastronomia, a arquitetura e as diferentes camadas culturais.

Não significa deixar de valorizar os cartões-postais. O que me interessa é ir além deles: entender a história que os fez ser o que são e o contexto cultural que dá significado àquilo que estamos vendo.

M&E – Como essa proposta influenciou a escolha dos destinos e personagens?

Lígia – A escolha não parte apenas dos atrativos mais conhecidos, mas principalmente da capacidade que cada lugar tem de revelar boas histórias. Buscamos personagens locais, tradições, sítios históricos, gastronomia e experiências capazes de aproximar o espectador daquele território de uma maneira menos óbvia.

Eu não queria simplesmente conduzir o espectador de um ponto turístico a outro. Queria conversar com quem vive nesses lugares, fazer perguntas, experimentar e investigar.

M&E – Por que Portugal foi escolhido para abrir a série?

Lígia -Portugal foi uma escolha muito natural. Existe uma proximidade histórica e cultural enorme com o Brasil e, ao mesmo tempo, uma quantidade impressionante de fatos, referências e particularidades que ainda conhecemos pouco.

É um território relativamente pequeno, mas com uma diversidade histórica, cultural, gastronômica e paisagística extraordinária. Encontramos vestígios da Idade do Ferro e do período romano, cidades medievais, tradições ligadas ao vinho, gastronomia regional e patrimônios arqueológicos que muitas vezes estão fora do roteiro mais evidente.

Não é preciso necessariamente ir a um lugar desconhecido para estar “fora do mapa”. Às vezes, basta olhar de outra maneira para um destino que todo mundo acredita já conhecer.

M&E – O que vocês procuram para uma próxima temporada?

Lígia – Mais do que simplesmente escolher um novo país ou região, buscamos territórios que tenham boas histórias para contar. A essência está nesse encontro entre história, cultura, gastronomia, personagens locais e experiências.

Já estamos estudando os próximos caminhos e existem alguns destinos no radar. Tudo indica que a próxima temporada poderá ser dedicada ao estado do Rio de Janeiro, que guarda no interior histórias, patrimônios, personagens, tradições e experiências muito pouco conhecidas, inclusive por quem vive no próprio estado.

M&E – O que mais chamou sua atenção nas pesquisas sobre o Rio?

Lígia – Sou do Rio de Janeiro e, nas pesquisas que já comecei a fazer, estou me deparando com elementos e locais muito interessantes para além das imagens mais reproduzidas e conhecidas pelos turistas.

Seria uma oportunidade de mostrar justamente o quanto ainda há para descobrir dentro do meu próprio estado.

M&E – Qual é a principal novidade do “Fora do Mapa” para o viajante?

Lígia – Acredito que seja provocar uma mudança de olhar. Buscar o que passa despercebido e sair do óbvio.

Hoje temos acesso a uma quantidade enorme de informações sobre viagens. É fácil descobrir o que visitar, onde tirar uma fotografia ou quais são os principais pontos turísticos. O que nem sempre encontramos é o contexto que faz aquele lugar ter significado.

Quando o viajante compreende uma tradição, conversa com quem vive naquele território ou prova um prato conhecendo a história que existe por trás dele, a experiência deixa de ser apenas contemplativa. Ela se torna cultural, afetiva e muito mais significativa.

M&E – O programa também pode estimular um turismo mais consciente?

Lígia – Acredito que sim. Quando damos espaço a pequenos produtores, restaurantes locais, patrimônios menos conhecidos, profissionais da região e histórias contadas por quem vive naquele território, ampliamos o olhar do viajante e podemos contribuir para que o fluxo turístico também alcance lugares que estão fora dos circuitos mais saturados.

Mais do que dizer ao público “vá a este lugar”, queremos provocar outra pergunta: “como posso compreender melhor o lugar para onde estou indo?”

M&E – E qual é o principal objetivo do projeto?

Lígia – Provocar curiosidade. Se o Fora do Mapa conseguir fazer com que o espectador viaje com mais curiosidade, repertório e disposição para se relacionar verdadeiramente com o território que visita, já cumpriremos uma parte essencial do propósito do projeto.

Sair do óbvio não significa necessariamente ir mais longe, mas aprender a olhar mais profundamente.