Corazul Buenavista
Navio Corazul Buenavista (Divulgação/Corazul)

A Corazul e seu navio, o Buenavista, existem mesmo? Podem parecer perguntas estranhas quando nos referimos a uma companhia de cruzeiros, mas ouvi ambas de muitas pessoas nos últimos meses. Afinal, nova no mercado, a empresa espanhola cancelou sua temporada inaugural no Mediterrâneo e, por meses, apresentou o Buenavista principalmente por meio de imagens produzidas com inteligência artificial.

As dúvidas aumentaram quando, em junho, a Corazul cancelou a programação que faria no Mediterrâneo e anunciou que concentraria sua estreia no Brasil. Naquele momento, veículos internacionais especializados já registravam dúvidas e questionamentos sobre o início das operações da nova companhia. O Buenavista permanecia na Ásia, onde havia operado anteriormente como Piano Land.

Agora, porém, a história ganhou contornos mais concretos. O Buenavista deixou a Ásia em direção ao Brasil e os sites de acompanhamento de rotas mostram, enquanto escrevo este texto, em 04 de outubro, que o navio deve fazer uma parada técnica nas Ilhas Maurício nos próximos dias. Ou seja, está a caminho do Brasil, com parada prevista em um país africano, em um porto que eu conheço e onde já vi outros navios de cruzeiro.

Quando o Buenavista estreia no Brasil?

Navio Corazul Buenavista (Divulgação/Corazul)
Cabine com varanda do navio Buenavista (Arquivo pessoal/Sylvia Barreto)

Representada pela R11 Travel no Brasil, a Corazul havia informado que anteciparia o início das operações do Buenavista no país. Em setembro, confirmou ao Mercado & Eventos que a primeira saída, inicialmente prevista para 06 de novembro, havia sido antecipada para 23 de outubro.

Para confirmar a informação, procurei a R11 Travel na sexta-feira (02/10). A resposta, porém, foi mais cautelosa. Segundo a empresa, a chegada do navio a Santos (SP) está prevista para o final de outubro. Antes de receber passageiros, o Buenavista ainda precisa concluir os trâmites de imigração, vistos da tripulação e demais procedimentos necessários ao início das operações.

A R11 informou ainda que a primeira saída está prevista para o final de outubro e marcará a estreia da Corazul Cruceros no litoral brasileiro. Por enquanto, portanto, 23 de outubro continua sendo a data anteriormente divulgada para a primeira saída, mas não foi reconfirmada nesta apuração.

Como é o Buenavista?

Navio Corazul Buenavista (Divulgação/Corazul)
Cabine interna do navio Buenavista (Arquivo pessoal/Sylvia Barreto)

O Buenavista foi construído em 1995 e, portanto, tem 31 anos. Mas não é o mesmo navio daquela época. Depois de três décadas e diferentes operações, a embarcação chega ao Brasil em uma nova fase, sua terceira encarnação, digamos assim.

Construído pelo estaleiro alemão Meyer Werft, o navio foi encomendado pela britânica P&O Cruises. Na época, recebeu o nome de Oriana e tinha 260 metros de comprimento. Foi batizado pela então Rainha Elizabeth II.

O Oriana permaneceu na frota da P&O Cruises até 2019 e, nesse período, passou por reformas. Depois, foi transferido para a operação da Astro Ocean, uma empresa formada em parceria entre a China Travel Service e a COSCO, e passou a se chamar Piano Land. O navio então ficou voltado ao mercado chinês.

Agora, em sua terceira fase, o navio é operado pela Corazul e passou por um novo processo de renovação e adaptação para receber a identidade da companhia e iniciar a operação no Brasil. Com 13 decks e capacidade para até 2.140 hóspedes, o Buenavista tem três piscinas, jacuzzis, cinco restaurantes, oito bares e lounges, cassino, cinema e spa.

É ruim o navio ter três décadas de vida? Ao longo dos anos, o Buenavista passou por diferentes reformas e atualizações. A idade, portanto, não significa necessariamente que a embarcação esteja obsoleta. Na indústria de cruzeiros, é comum que companhias façam reformas e atualizações periódicas em seus navios para modernizar áreas, equipamentos e serviços.

Preços, comissões e as condições para os agentes

Navio Corazul Buenavista (Divulgação/Corazul)
Área da piscina do navio Buenavista (Arquivo pessoal/Sylvia Barreto)

A R11 Travel é a responsável pela distribuição do produto no Brasil, e as reservas são exclusivas dos agentes de viagem. O cliente não consegue comprar uma viagem diretamente pela internet: precisa entrar em contato com uma agência parceira.

Até 11 de outubro, a Corazul está com uma campanha que beneficia agentes e consumidores. Além da comissão acordada, a companhia oferece 10 pontos percentuais adicionais de comissão para as vendas. Para os clientes, as reservas têm até 15% de desconto.

A Corazul confirmou tarifas a partir de R$ 2.850 por pessoa para roteiros de três noites, em dez parcelas de R$ 285, com taxas incluídas. Para roteiros de sete noites, com pernoite em Salvador, os valores partem de R$ 6.060 por pessoa, também em dez parcelas de R$ 606 e com taxas incluídas.

Em todas as saídas, segundo a companhia, o pacote de bebidas e o seguro-viagem estão incluídos na tarifa do cruzeiro. Entre as bebidas oferecidas estão água com e sem gás, refrigerantes, sucos, café, chá, cerveja, vinhos tinto, branco e rosé, espumante, licor, whisky, gin, rum, cachaça, vodca, conhaque e coquetéis.

Outro ponto importante da operação brasileira é o idioma. A R11 Travel confirmou que parte da tripulação deve falar português. O idioma será um dos oficiais da operação no Brasil, ao lado do espanhol.

Qual espaço a Corazul deve ocupar no mercado brasileiro?

Navio Corazul Buenavista (Divulgação/Corazul)
A Corazul chega com apenas uma embarcação e uma proposta mais enxuta (Divulgação/Corazul)

A Corazul chega ao Brasil com o Buenavista e uma proposta que lembra um produto que já teve bastante espaço por aqui: cruzeiros com preços mais acessíveis, navio de menor porte e uma oferta de bebidas incluída na tarifa. Para mim, comparação com a Pullmantur é inevitável, embora não seja possível dizer que a Corazul esteja simplesmente ocupando o mesmo lugar deixado pela companhia espanhola.

O mercado brasileiro hoje é dominado por grandes grupos, como MSC Cruzeiros e Costa Cruzeiros, que trabalham com navios de diferentes portes e produtos mais consolidados. A Corazul chega com apenas uma embarcação e uma proposta mais enxuta. A questão, portanto, não é apenas se existe espaço para mais uma companhia de cruzeiros no Brasil, mas se ainda há público para esse tipo de produto.

Para o passageiro, o preço é um dos principais atrativos. Para as agências de viagem, as comissões. Mas preço e comissão, sozinhos, não sustentam uma operação de cruzeiros. 

Nos próximos meses, é preciso ver como o Buenavista entrega gastronomia, entretenimento, serviço, manutenção e experiência a bordo e, principalmente, se consegue fazer isso de maneira consistente ao longo da temporada. O resultado irá influenciar não só a procura pelos cruzeiros da Corazul, como também a confiança do agente de viagem em oferecer o produto.

Eu confio na Corazul?

Navio Corazul Buenavista (Divulgação/Corazul)
Port Louis, em Ilhas Maurício, é a próxima parada do Buenavista (Arquivo Pessoal/Sylvia Barreto)

Depois de toda essa apuração, a pergunta que fica é: eu confio na Corazul? A resposta não é tão simples e sou uma pessoa cética. A companhia ainda precisa provar muita coisa, afinal de contas, é uma empresa nova chegando ao Brasil e sua estreia passou por mudanças de planejamento. Além disso, ninguém testou ainda a experiência do Buenavista na prática. 

Há, porém, um aspecto da estrutura da operação brasileira que considero importante. Segundo Ricardo Amaral, em entrevista ao Mercado & Eventos, o acordo entre a R11 Travel e a Corazul prevê que os valores das reservas permaneçam com a R11 e sejam repassados à companhia somente depois que o passageiro realizar a viagem. A estrutura foi pensada como uma forma de proteção para a R11 e para os agentes de viagem diante de uma operação nova.

Esse cenário não tira os riscos de uma companhia que está começando, mas mostra que a R11 também está colocando uma camada de proteção na operação brasileira. Pessoalmente, achei uma ótima estratégia. 

Fora tudo isso, existe um profissional por trás dessa operação em quem eu confio: Ricardo Amaral. O conheço desde 2009, quando liderou a abertura do escritório da Royal Caribbean no Brasil. Ele comandou a operação da companhia no país e na América Latina até 2016, quando deixou a empresa para fundar a R11 Travel.

Isso não significa que eu possa garantir que a Corazul será um sucesso. Mas, para mim, faz diferença saber que a distribuição da operação brasileira está sob responsabilidade de uma empresa comandada por alguém que conhece profundamente o mercado de cruzeiros, o trade e as particularidades do Brasil.

Hoje, eu ainda não posso dizer que confio na Corazul. Mas acredito em quem está conduzindo a chegada da companhia ao Brasil. Agora, vamos esperar o Buenavista chegar e mostrar se a promessa corresponde à experiência.