
A tecnologia está mudando a maneira como os brasileiros organizam suas viagens internacionais, e a Nomad quer ocupar um espaço cada vez maior nessa jornada. A fintech, que nasceu com foco em serviços financeiros e operações em dólar, vem ampliando sua atuação para além do câmbio, com ferramentas de planejamento financeiro, recomendações de experiências no exterior e novos produtos voltados ao viajante.
A estratégia é transformar a relação com o cliente em um ecossistema de serviços que acompanhe diferentes etapas da viagem, da organização do orçamento à experiência no destino. Em entrevista ao M&E, Bruno Guarnieri, CRO responsável pela frente de travel da Nomad, explica que a expansão acompanha o crescimento da empresa e a necessidade de oferecer soluções mais abrangentes aos usuários.
Entre as iniciativas estão uma calculadora que estima quanto custa uma viagem e quanto o consumidor precisa economizar para realizá-la, além do Nomad Guide, plataforma de recomendações de restaurantes, experiências culturais e atrações com curadoria especializada.
“Não dá mais para a gente ser uma empresa que só oferece esse tipo de serviço de câmbio, de remessa, de viagem internacional. A gente quer, de alguma forma, dar um ecossistema mais amplo para essa viagem”, explicou Guarnieri.
A mudança de posicionamento parte da compreensão de que o relacionamento com o viajante não começa no momento em que ele compra moeda estrangeira ou embarca para o destino. A organização financeira, a escolha das experiências e a busca por informações práticas também fazem parte dessa jornada. Para a Nomad, atender a essas necessidades representa uma oportunidade de ampliar o relacionamento com os clientes e desenvolver novas frentes de negócio.
Tecnologia para planejar o custo da viagem
Uma das iniciativas da empresa é a ferramenta que permite ao usuário estimar o orçamento necessário para realizar uma viagem internacional. A plataforma considera informações como destino, duração, período da viagem e perfil das experiências desejadas para apresentar uma estimativa de gastos e indicar quanto o viajante precisaria guardar mensalmente para alcançar seu objetivo.
A proposta é tornar o planejamento financeiro mais concreto. Em vez de definir o destino e deixar para organizar o orçamento posteriormente, o consumidor pode visualizar com antecedência o valor necessário para viabilizar a viagem e estabelecer uma meta de economia compatível com sua realidade.
“É basicamente uma calculadora de conteúdo informacional de quanto aquele cliente, selecionando o destino que ele quer ir, o tempo de viagem que ele quer fazer e as coisas que ele quer fazer, precisa guardar mensalmente para fazer essa viagem”, explica o executivo.
O funcionamento combina informações públicas de mercado com dados internos da Nomad. A companhia utiliza referências externas para estimar despesas que ainda não consegue observar diretamente em sua própria base, ao mesmo tempo que considera informações sobre os hábitos de consumo dos clientes.
Segundo Guarnieri, os dados internos permitem identificar padrões de gastos em determinados destinos e estabelecimentos, contribuindo para aprimorar as estimativas oferecidas aos usuários. A proposta é tornar as projeções mais próximas do comportamento real dos viajantes, em vez de trabalhar exclusivamente com médias genéricas.
“Eu preciso comparar com o que o mercado está trazendo para ver se faz sentido ou para fazer um recorte Nomad entre um espectro de cliente e poder alimentar esse cliente com essa informação”, afirmou.
A ferramenta recebeu uma nova versão em agosto, e a empresa iniciou a ampliação de sua utilização a partir de outubro, após ajustes para aprimorar a experiência. O executivo, porém, não apresentou números de adesão ou resultados que permitam mensurar o impacto da solução sobre o planejamento financeiro dos usuários.
A iniciativa ganha relevância em um cenário no qual o câmbio pode alterar significativamente o orçamento de uma viagem internacional. Para a Nomad, a possibilidade de visualizar os custos com antecedência ajuda o consumidor a compreender melhor o esforço financeiro necessário e a distribuir esse planejamento ao longo dos meses.
Investimentos e câmbio entram na jornada
A conexão entre viagens e investimentos é outro componente da estratégia. A Nomad já oferece investimentos internacionais e busca aproximar essa possibilidade dos objetivos financeiros dos clientes, incluindo a realização de viagens.
Na avaliação do CRO, o comportamento de quem investe pode contribuir para uma organização financeira mais consistente. A proposta não é necessariamente criar um produto de investimento exclusivo para viagens, mas incentivar os usuários a considerar seus objetivos pessoais ao organizar o dinheiro disponível.
“Algumas pessoas já estão colocando dinheiro dentro de um produto de investimento para fazer um resgate no momento da viagem. A gente está entendendo o comportamento de uso desse cliente e conseguindo fazer com que, na jornada dele, ele consiga trazer mais dinheiro pensando no caso de uma viagem”, disse.
O executivo ressalta, contudo, que o planejamento deve considerar a capacidade financeira de cada pessoa. A escolha de investir para uma viagem futura exige atenção aos prazos, aos riscos e à possibilidade de oscilações nos valores disponíveis, especialmente quando o objetivo envolve despesas em moeda estrangeira.

Para quem pretende viajar, Guarnieri recomenda evitar a concentração da compra de dólares nos últimos dias antes do embarque. A orientação é distribuir as aquisições ao longo do período de preparação, de acordo com o orçamento disponível.
“A principal recomendação é não deixar para o final. Compre o dólar ao longo da sua jornada de planejamento de viagem. Vai viajar daqui a seis meses? Beleza. Vai com um pedaço agora, depois três, quatro, cinco meses antes, assim vai dividindo”, orientou Bruno.
A estratégia, entretanto, não elimina os riscos cambiais nem garante uma cotação mais favorável. O ponto central, segundo ele, é evitar que todo o orçamento dependa de uma única decisão tomada às vésperas da viagem e adequar os gastos previstos à renda do viajante.
O executivo também observa mudanças no perfil de consumo dos brasileiros no exterior. De acordo com os dados acompanhados pela empresa, há maior procura por experiências de alto padrão, o que pode elevar o orçamento necessário para determinadas viagens.
“Passa por um comportamento de entender o quanto você consegue gastar efetivamente com uma viagem e por uma mudança cultural de onde você está gastando esse dinheiro”, afirmou. Para Guarnieri, a ferramenta de planejamento pode ajudar justamente a dar clareza sobre o valor necessário para realizar experiências que, sem organização prévia, poderiam ficar fora do alcance do consumidor.
Nomad Guide aposta em curadoria humana
Além do planejamento financeiro, a Nomad quer ampliar sua presença na etapa de escolha das experiências. O Nomad Guide reúne recomendações de restaurantes, atividades culturais e outros programas em diferentes destinos, com a proposta de oferecer referências que vão além das sugestões mais recorrentes em pesquisas convencionais.
A plataforma combina o trabalho de uma equipe responsável pela curadoria com a participação de especialistas que compartilham recomendações próprias. A ideia é valorizar informações específicas sobre os destinos, como estabelecimentos frequentados por moradores, pratos que merecem ser experimentados e experiências que nem sempre aparecem entre as atrações mais populares.
Guarnieri cita a participação de especialistas que contribuem com indicações próprias, acrescentando contexto às recomendações. A empresa também começou a abrir espaço para comentários e contribuições dos próprios clientes, em uma tentativa de fortalecer o caráter comunitário da plataforma.
“Uma coisa é ter uma informação genérica, outra é ter uma pessoa que vivenciou aquela experiência e que tem um perfil parecido com o seu”, concluiu Bruno.
A personalização, nesse contexto, considera que diferentes viajantes têm necessidades distintas. Uma pessoa que viaja sozinha pode procurar experiências diferentes das de alguém que viaja com crianças ou em família. Ao aproximar usuários com perfis semelhantes, a empresa pretende oferecer sugestões mais alinhadas aos objetivos de cada viagem.
A iniciativa também representa uma aposta na combinação entre tecnologia e conhecimento humano. Embora a inteligência artificial possa acelerar pesquisas e organizar grandes volumes de informações, a Nomad considera que a experiência de quem conhece determinado destino continua sendo um diferencial para a qualidade das recomendações.
Inteligência artificial para ganhar escala
A inteligência artificial já faz parte dos processos internos da empresa, especialmente no desenvolvimento de produtos e no tratamento de dados. Segundo Guarnieri, a tecnologia contribui para acelerar tarefas, aumentar a eficiência das equipes e melhorar a capacidade de atualização das informações utilizadas nas ferramentas.
No planejamento de viagens, esse aspecto é relevante porque os padrões de consumo mudam de acordo com o destino, a época do ano e o perfil do viajante. A atualização das bases de dados pode ajudar a tornar as estimativas mais precisas e as recomendações mais adequadas à realidade dos usuários.
“O que acontece quando a gente fala de desenvolvimento de produtos, é que a IA vem para acelerar esse processo e trazer mais consistência de dados”, afirmou.
A empresa, porém, não pretende substituir o relacionamento humano por soluções automatizadas. Para o executivo, a tecnologia deve facilitar a operação e melhorar a experiência, sem eliminar o suporte necessário em situações nas quais o viajante enfrenta dificuldades fora do Brasil, especialmente em ambientes com idioma e cultura diferentes.
“Apesar de usar tecnologia para trazer eficiência e velocidade, a gente ainda acredita muito nessa parte de curadoria, no atendimento e no relacionamento humano com os viajantes”, destacou.
A combinação entre automação, dados e atendimento especializado deve orientar a evolução das soluções. O CRO afirma que a companhia está avaliando as prioridades para o próximo ciclo de planejamento, mas não antecipou funcionalidades específicas que serão lançadas em 2027.
Cartão de crédito amplia presença na viagem
A expansão da Nomad também passa pelos meios de pagamento. Embora a conta global e o cartão de débito façam parte da proposta original da empresa, a fintech passou a investir no cartão de crédito para atender a um comportamento ainda consolidado entre os brasileiros, inclusive durante viagens internacionais.
A companhia lançou o cartão Nomad Explorer, com bandeira Visa, e posteriormente ampliou sua oferta com uma categoria Visa Platinum. Os produtos buscam combinar os gastos cotidianos com benefícios relacionados a viagens, incluindo mecanismos de recompensa e acúmulo de pontos.
Para Guarnieri, a decisão considera a relevância do cartão de crédito no comportamento de consumo do brasileiro. Mesmo quando existem alternativas de pagamento com características diferentes, muitos consumidores continuam concentrando as despesas no cartão de crédito por hábito e pela percepção de benefícios associados ao produto.
“Se o eixo de viagem é o que move a companhia, eu preciso estar em um meio de pagamento que atenda a esse eixo. O cartão de crédito passa a ser esse meio”, explicou Bruno.
O executivo também chama atenção para a ampliação da oferta de cartões com categorias consideradas premium. Na avaliação dele, a maior disponibilidade de produtos com benefícios semelhantes pode dificultar a percepção das diferenças entre as opções disponíveis no mercado, reforçando a importância de apresentar uma proposta de valor que faça sentido para o viajante.
Próximos passos incluem conteúdo e novos serviços
A Nomad está em fase de planejamento para 2027 e pretende reforçar a atuação como parceira dos brasileiros em suas experiências fora do País. Isso inclui a ampliação de conteúdos sobre os destinos, informações práticas para a preparação da viagem e o desenvolvimento de serviços complementares.
Entre as iniciativas mencionadas está a oferta de informações detalhadas sobre os países visitados, incluindo particularidades que podem influenciar a experiência do turista. A proposta é ajudar o viajante a se preparar para questões práticas, como diferenças nos padrões de tomadas e necessidades específicas do destino.
A empresa também pretende ampliar o relacionamento com os usuários por meio de recursos comunitários e recomendações personalizadas. O objetivo é fazer com que a plataforma acompanhe não apenas as transações financeiras, mas também as necessidades que surgem antes e durante a viagem.
Outro segmento em avaliação é o turismo corporativo. Guarnieri reconhece que clientes utilizam os serviços da Nomad durante viagens de trabalho, mas ressalta que a criação de uma solução específica para empresas exige uma estrutura própria. Por enquanto, não há lançamento confirmado nessa frente.
“Definitivamente, não tem nada programado, planejado para lançamento. Mas a gente não ignora nada que tenha qualquer tipo de impacto no nosso negócio”, afirmou.
Um ‘programa de fidelidade’ mais robusto também está em estudo. Atualmente, a empresa oferece benefícios vinculados ao relacionamento, como o Nomad Pass, e ao consumo dentro de seu ecossistema, além de atendimento diferenciado para determinados clientes investidores. A intenção é avaliar como ampliar essas vantagens, mas sem antecipar um formato ou prazo para a implementação de um programa mais abrangente.
A estratégia, portanto, combina a expansão dos serviços existentes com a avaliação de novas oportunidades de negócio. Para a Nomad, a tecnologia deve funcionar como uma ferramenta para conhecer melhor o viajante e atender às suas necessidades ao longo da jornada, sem perder de vista a experiência e o relacionamento com o cliente.
“Uma coisa é simplesmente ter uma tecnologia. A outra é sobre relacionamento e proximidade”, resumiu Bruno, ao destacar também a importância de fortalecer a relação com os parceiros e os estabelecimentos consumidos pelos clientes durante as viagens.







