
As bets estão no centro de uma discussão no Supremo Tribunal Federal (STF) nesta terça-feira (3), enquanto os primeiros indicadores de consumo divulgados após a interrupção das plataformas apontam crescimento nas vendas dos supermercados. A Associação Brasileira de Supermercados (Abras) identificou altas de 6,5% e 6,3% nas duas primeiras semanas completas de outubro, na comparação com os mesmos períodos de 2025. O resultado levantou uma questão sobre o destino do dinheiro antes direcionado às apostas: parte desses recursos também poderá chegar ao turismo, movimentando viagens, hotéis, restaurantes e atividades de lazer?
A discussão ocorre após a publicação da Medida Provisória 1.394/2026, em 25 de setembro, que determinou a proibição das apostas de quota fixa no país. As plataformas tiveram até 6 de outubro para retirar seus sites e aplicativos do ar. A medida passou a ser questionada por entidades do setor no STF, que convocou uma audiência pública para ouvir representantes do governo, clubes de futebol, organizações esportivas, comércio e empresas de apostas.
O encontro foi convocado pelo ministro Luiz Fux, relator da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 8.027. A discussão envolve os efeitos econômicos e sociais da proibição, incluindo o endividamento das famílias, a proteção dos consumidores, os contratos de patrocínio e a arrecadação.
Vendas de supermercados crescem após proibição das bets
O primeiro sinal de mudança no consumo apareceu no varejo alimentar. Segundo levantamento da Abras divulgado pela Agência Brasil em 28 de outubro, as vendas dos supermercados cresceram 6,5% entre 5 e 11 de outubro, na comparação com a mesma semana de 2025. Na semana seguinte, de 12 a 18 de outubro, o avanço foi de 6,3%.
De acordo com a entidade, o crescimento ocorreu em diferentes regiões do país e formatos de varejo, incluindo supermercados, atacarejos e mercearias. Entre os produtos com aumento de consumo estavam itens básicos, como arroz, óleo, macarrão e café.
Na primeira semana analisada, as maiores altas foram registradas no Sul e na região formada por Minas Gerais, Espírito Santo e interior do Rio de Janeiro, ambas com 10,6%. No interior de São Paulo, o crescimento foi de 5,6%. Na Grande São Paulo, a variação foi de 1,2%. Na segunda semana, o Sul registrou alta de 9%, enquanto Minas Gerais, Espírito Santo e interior do Rio de Janeiro avançaram 7,1%. Na Grande São Paulo, o crescimento chegou a 5,5%.
A Abras avalia que parte do dinheiro antes destinado às apostas pode ter sido redirecionada para as compras domésticas. A entidade também citou dados de transações via Pix, que teriam apresentado redução de 10% após a restrição às bets, percentual que posteriormente recuou para 7%.
Apesar da coincidência entre a interrupção das plataformas e o aumento das vendas, os números não comprovam, isoladamente, que a proibição tenha provocado o crescimento. A própria associação aponta uma possível relação entre os movimentos, mas não há uma pesquisa nacional que acompanhe individualmente o destino dos recursos dos antigos apostadores.
Turismo pode receber parte desse dinheiro?
Se o aumento do consumo nos supermercados representa um primeiro movimento de reorganização das despesas das famílias, o turismo aparece como outro segmento que pode disputar espaço nesse orçamento.
Passagens aéreas, hospedagem, alimentação fora de casa e passeios dependem da renda disponível dos consumidores. Quando uma família reduz despesas com apostas, pode ter mais recursos para outras atividades. Entretanto, isso não significa necessariamente que o dinheiro será utilizado em viagens.
Os recursos também podem ser destinados ao pagamento de dívidas, contas atrasadas, compras essenciais ou recomposição da poupança. Por isso, ainda é cedo para afirmar que o setor turístico será beneficiado pela proibição.
Um dos indicadores recentes que ajuda a acompanhar o comportamento dos viajantes é a pesquisa de ocupação hoteleira para o feriado de Finados, realizada pela Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Rio de Janeiro (ABIH-RJ) e pelo HotéisRIO.
Levantamento divulgado em 30 de outubro apontou ocupação média de 70,20% nos hotéis da cidade do Rio de Janeiro para o feriado de 2 de novembro. No interior fluminense, a média chegou a 71,54%, considerando o período de 31 de outubro a 2 de novembro. Entre os destinos do estado, Petrópolis registrou expectativa de 90,20% de ocupação, enquanto Nova Friburgo alcançou 81,50%. Arraial do Cabo apareceu com 78,50% e Paraty com 62%.
Os números mostram a movimentação da hotelaria em um período posterior à interrupção das bets. Entretanto, não há comparação apresentada pela entidade que permita atribuir o resultado à proibição das apostas.
Confiança do consumidor ainda exige atenção
Outro indicador importante para avaliar a disposição das famílias para gastar é a confiança do consumidor. Segundo a sondagem da Fundação Getulio Vargas (FGV), divulgada em outubro e compilada em boletim do Ministério da Fazenda, o Índice de Confiança do Consumidor avançou 0,5 ponto, chegando a 84,7 pontos.
Apesar da pequena alta, o Índice de Situação Atual recuou de 84 para 81,4 pontos. Já o Índice de Expectativas subiu de 85,2 para 88 pontos. O resultado mostra um cenário dividido: as expectativas para os meses seguintes melhoraram, mas a percepção dos consumidores sobre a situação econômica presente piorou.
Para o turismo, esse comportamento importa porque viagens costumam depender não apenas da renda disponível, mas também da confiança sobre a capacidade de assumir despesas futuras. Mesmo que parte dos consumidores deixe de apostar, o dinheiro não necessariamente será direcionado a férias ou viagens se houver preocupação com dívidas, inflação e despesas domésticas.
STF debate futuro das bets e impactos econômicos
A audiência pública realizada nesta terça-feira (3) pelo STF reúne 28 entidades, entre representantes do governo, clubes de futebol, organizações esportivas, comércio e setor de apostas. A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), autora da ADI 8.027, questiona a constitucionalidade da Medida Provisória 1.394/2026 e pede o reconhecimento da validade da legislação que regulamentou as apostas de quota fixa no Brasil.
Durante a discussão, os representantes dos diferentes setores apresentam argumentos sobre os efeitos da proibição. O governo aponta preocupações relacionadas ao endividamento e à proteção dos consumidores. Clubes e entidades esportivas, por outro lado, discutem perdas de patrocínios e receitas vinculadas às plataformas.
A audiência tem caráter informativo e não representa uma decisão sobre a retomada das operações. O futuro das bets dependerá dos desdobramentos judiciais e da tramitação da medida provisória no Congresso Nacional.
Turismo ainda não tem dados que comprovem mudança nos gastos
Embora o varejo alimentar já tenha identificado crescimento nas vendas após a interrupção das apostas, o turismo ainda não dispõe de uma série de dados que permita identificar uma mudança semelhante. Os indicadores mais recentes da aviação brasileira divulgados pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) são referentes a setembro, portanto anteriores à retirada das plataformas do ar. No período, foram transportados 10,9 milhões de passageiros em voos domésticos e internacionais, alta de 0,7% em relação ao mesmo mês de 2025.
No turismo internacional, os gastos de visitantes estrangeiros chegaram a US$ 8,38 bilhões, aproximadamente R$ 45,6 bilhões, entre janeiro e setembro, segundo dados do Banco Central compilados pelo Ministério do Turismo. O resultado representa crescimento de 10% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Esses números mostram a dimensão econômica do turismo brasileiro, mas não permitem avaliar o comportamento dos consumidores nacionais depois da proibição das bets. Para identificar se o dinheiro antes destinado às apostas está chegando às viagens, será necessário acompanhar os dados de outubro e novembro sobre reservas hoteleiras, venda de passagens, despesas com lazer e comportamento das famílias.







