Caribe em tensão: tempestade Melissa pode se tornar furacão com rota ainda incerta
(Mar excepcionalmente quente e clima úmido favorecem intensificação no Caribe Reprodução)

A tempestade tropical Melissa ganhou força sobre as águas excepcionalmente quentes do Caribe Central e pode atingir status de furacão nos próximos dias, de acordo com o Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos (NHC). O sistema já provocou alertas de furacão para o sul do Haiti e de tempestade tropical para a Jamaica, acendendo o sinal de emergência em toda a região.

Na tarde de terça-feira (21), Melissa estava a cerca de 490 quilômetros ao sul de Porto Príncipe, movendo-se a 22 km/h em direção oeste-noroeste, com ventos sustentados de 85 km/h. A previsão do NHC indica que a tempestade deve se fortalecer gradualmente, podendo alcançar categoria 1 até o fim de semana.

“Há um ambiente extremamente favorável para intensificação: mares muito quentes, atmosfera úmida e ventos moderados”, alertou o órgão norte-americano em seu mais recente boletim.

O maior temor está nas chuvas torrenciais e deslizamentos de terra em áreas montanhosas do Haiti e do sul da República Dominicana. Modelos meteorológicos projetam acúmulo de até 300 milímetros de chuva até sexta-feira, com risco de precipitações ainda mais fortes em pontos isolados.

A pesquisadora Kim Wood, da Universidade do Arizona, explica que o cenário atual é consequência direta do aquecimento global.

“As águas do Caribe estão entre as mais quentes já registradas para o fim de outubro, cerca de 0,5°C acima da média histórica. Esse nível de aquecimento é até 800 vezes mais provável por causa das mudanças climáticas”, afirmou.

Melissa é a 13ª tempestade nomeada da temporada de furacões do Atlântico em 2025, atingindo a marca quatro dias antes da média histórica. A expectativa é que o sistema se mova lentamente, aumentando o potencial de inundações — um risco crítico para o Haiti, país fortemente vulnerável devido à deflorestação e à falta de infraestrutura.

Os modelos de previsão ainda divergem sobre o caminho da tempestade. O modelo europeu indica uma rota mais a oeste, mantendo Melissa sobre o Caribe até o início da próxima semana, enquanto o modelo americano (GFS) aponta uma curva para o norte, possivelmente em direção a Cuba ou Haiti. Um modelo de inteligência artificial do Google também prevê mudança de direção, mas com “grande margem de incerteza”.

Apesar da dúvida sobre o trajeto, o consenso entre os meteorologistas é que Melissa vai se fortalecer. O NHC estima 25% de chance de a tempestade alcançar ventos de 120 km/h em 72 horas, o que a colocaria na categoria 3, classificada como de intensidade severa.

Históricos mostram que sistemas tardios no Caribe podem ser devastadores. O furacão Matthew (2016) matou mais de 700 pessoas no Haiti, enquanto o Wilma (2005) se tornou o mais intenso já registrado no Atlântico, com ventos de 280 km/h.

Com a atmosfera úmida e os mares superaquecidos, Melissa encontra o cenário ideal para crescer — e o Caribe, mais uma vez, se vê diante de uma ameaça que combina natureza, vulnerabilidade e a força crescente das mudanças climáticas.

“As próximas 72 horas serão decisivas para entender o destino da tempestade”, reforçou o NHC.

*Com informações de Metsul