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Em artigo, diretor comercial da empresa no Brasil defende que instituições financeiras adaptem seus produtos ao novo perfil do viajante (Magnific)

Existe uma pergunta que os bancos e as instituições financeiras deveriam se fazer neste momento: quando foi a última vez que olharam para seus clientes como viajantes, e não apenas como consumidores?

Não basta observar os gastos registrados na fatura do cartão. É preciso entender o que eles representam. Uma passagem comprada para Buenos Aires em um fim de semana prolongado. Uma reserva de hotel em Lima poucos dias depois. Um jantar em Lisboa durante uma conexão ou um café no aeroporto antes de um voo internacional. Cada uma dessas transações revela uma mudança importante no comportamento do brasileiro.

Viajar nunca fez tanto parte da rotina de consumo. E essa transformação vai muito além do aumento das viagens internacionais. Ela altera a forma como as pessoas escolhem seus cartões, utilizam serviços financeiros e valorizam benefícios que, até poucos anos atrás, eram considerados diferenciais para poucos clientes.

Durante muito tempo, o mercado tratou as viagens como um consumo sazonal. Produtos financeiros eram desenhados pensando nas férias de julho, no recesso de fim de ano ou em clientes que viajavam esporadicamente ao exterior. Mas essa lógica já não acompanha a realidade de uma nova geração de consumidores.

Millennials e integrantes da Geração Z passaram a incorporar as viagens ao seu estilo de vida. Não se trata apenas de conhecer novos destinos, mas de aproveitar ao máximo cada etapa da jornada. Esse comportamento ficou conhecido como “Travel Maxxing”, conceito que descreve a busca por experiências mais completas, combinando diferentes cidades, eventos, escalas e oportunidades em uma mesma viagem.

Essa mudança aparece de forma clara nos dados. Mais da metade dos viajantes brasileiros já planeja roteiros com mais de um destino, enquanto 58% pretendem viajar mais ao exterior em 2026 do que no ano anterior. Em âmbito global, 74% dos Millennials e da Geração Z consideram as viagens uma prioridade de consumo, enquanto 75% chegam mais cedo aos aeroportos para aproveitar benefícios como salas VIP.

Esses números mostram que o acesso a serviços ligados à experiência de viagem deixou de ser um benefício secundário. Para muitos consumidores, passou a fazer parte do próprio processo de decisão na escolha de um cartão ou de uma instituição financeira.

O Brasil também ocupa uma posição relevante nesse movimento. As viagens dentro das Américas cresceram de forma consistente nos últimos anos, acompanhadas pelo aumento do uso de benefícios associados ao deslocamento. Dados do Priority Pass mostram que as visitas a salas VIP em rotas regionais praticamente dobraram entre 2023 e 2025, passando de 13,7 milhões para 27,3 milhões de jornadas.

Ao mesmo tempo, os gastos internacionais realizados por brasileiros seguem em expansão. Apenas no primeiro trimestre de 2026, as despesas no exterior pagas com cartões somaram R$ 27,9 bilhões, crescimento de 37% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo dados da Abecs e do Banco Central.

Mais do que um indicador de consumo, esses números demonstram que a viagem deixou de ser um evento isolado para se tornar parte da rotina financeira de milhões de brasileiros.

Essa transformação traz uma reflexão importante para o setor financeiro. Se o cliente utiliza o cartão em diferentes países ao longo do ano, faz conexões frequentes e realiza pagamentos em diversas moedas, faz sentido continuar oferecendo produtos desenhados apenas para quem viaja ocasionalmente?

A experiência do usuário começa muito antes do embarque. Ela envolve a facilidade para utilizar o cartão no exterior, a transparência na conversão cambial, o acesso a salas VIP, seguros de viagem integrados, atendimento digital eficiente e benefícios que realmente acompanhem o cliente durante toda a jornada.

Cada etapa da viagem representa um ponto de contato entre consumidor e instituição financeira. E, nesse cenário, a qualidade da experiência pode ser tão importante quanto aspectos tradicionais, como limite de crédito ou valor da anuidade.

A tecnologia disponível atualmente permite oferecer esse tipo de serviço. O desafio está menos na capacidade técnica e mais na disposição das empresas em enxergar as viagens como parte permanente da relação com seus clientes.

Esse movimento tende a ganhar ainda mais força nos próximos anos. Grandes eventos internacionais, o crescimento da conectividade aérea e o aumento das viagens de lazer e negócios continuarão ampliando a circulação de brasileiros pelo mundo.

Para o setor financeiro, acompanhar essa transformação significa compreender que os benefícios relacionados às viagens deixaram de atender apenas um público específico. Eles passaram a integrar a rotina de um número crescente de consumidores que valorizam conveniência, flexibilidade e experiências ao longo de toda a jornada.

No fim, a discussão não é apenas sobre cartões ou programas de benefícios. É sobre relevância. Em um mercado cada vez mais competitivo, compreender como as pessoas viajam passou a ser tão importante quanto entender como elas gastam.

Por Erick Luiz, diretor comercial da Collinson International no Brasil.