dia do professor
Osiris Marques, professor e pesquisador da Faculdade de Turismo e Hotelaria UFF – Tecnologia, pesquisa e novas habilidades mudam a formação dos profissionais de turismo (Arquivo Pessoal)

RIO DE JANEIRO – No Dia do Professor, celebrado nesta quinta-feira (15), Osiris Marques, professor e pesquisador da Faculdade de Turismo e Hotelaria da Universidade Federal Fluminense (UFF), analisa as mudanças na formação dos turismólogos, os impactos da inteligência artificial, a aproximação entre universidades e mercado e as novas possibilidades de atuação profissional no setor. Para ele, além do domínio de dados e tecnologias, habilidades como liderança, relacionamento interpessoal e capacidade de análise seguem entre os principais diferenciais dos profissionais de turismo.

A formação dos profissionais de turismo passou por mudanças nos últimos anos, acompanhando transformações tecnológicas e sociais que também chegaram às universidades. O avanço da IA, dos aplicativos e das novas ferramentas digitais exige uma atualização constante dos cursos e dos estudantes.

Marques, que iniciou sua trajetória acadêmica na área de economia, conta que chegou ao turismo de forma inesperada. Graduado, mestre e doutor em economia, ele se inscreveu em um concurso da UFF para a área de economia do turismo enquanto concluía o doutorado. “Comecei minha trajetória no turismo e me surpreendi. Não esperava que o setor fosse tão cheio possibilidades de pesquisa. Depois que entrei, fiquei muito feliz de ter iniciado minha trajetória não apenas como professor, mas também como pesquisador”, afirma.

Formação em turismo precisa acompanhar mercado e tecnologia

Para Marques, o papel dos professores na formação dos turismólogos está diretamente relacionado à característica multidisciplinar do setor. O profissional precisa transitar por conhecimentos de diferentes áreas, como marketing, economia, história e museologia. Na avaliação do professor, cabe à universidade fornecer ferramentas que permitam aos estudantes atuar no mercado de trabalho e compreender as transformações do setor. “Sempre com informações atualizadas e perspectivas atualizadas do fenômeno turístico nas suas respectivas áreas”, acrescenta.

Entre as mudanças mais recentes está a chegada da IA, que, de acordo com Marques, têm entrado na universidade de uma forma muito mais lenta do que deveria. “A velocidade com que a evolução tecnológica está ocorrendo nos últimos dois ou três anos é muito maior do que a capacidade institucional de inserir essas tecnologias na formação desses novos profissionais”, avalia.

Segundo ele, a IA também apresenta um desafio para os professores porque produz e organiza informações em alta velocidade, mas nem sempre com o mesmo nível de confiabilidade. “A inteligência artificial entra desestruturando o ensino. Isso tem sido um grande desafio”, observa.

Apesar do avanço tecnológico, Marques não considera que as competências humanas tenham perdido espaço. Para ele, habilidades relacionadas ao relacionamento interpessoal, liderança, trabalho em equipe e gestão de crises continuam fundamentais para o turismólogo. “O trato com o público, a capacidade de lidar com pessoas diferentes da mesma equipe e de gerir crises ainda é fundamental na formação do turismo, talvez mais fundamental do que antes, exatamente porque é isso que vai diferenciar o ser humano das demais tecnologias”, considera.

As transformações também aparecem no perfil dos estudantes que chegam aos cursos de turismo. Marques observa uma maior diversidade social entre os alunos e atribui parte dessa mudança às políticas de acesso e permanência no ensino superior. “Vejo como fundamental todo esse processo das leis de cotas, das políticas de permanência e todo esse conjunto de políticas que serve não só para acessar a universidade, mas também para permanecer nela”, afirma.

Pesquisa em turismo ainda é pouco aproveitada pelo mercado

Outro ponto levantado é a relação entre produção acadêmica e empresas, uma vez que muitos estudantes ainda entendem a graduação como uma preparação exclusivamente para o mercado de trabalho. “Ele não consegue enxergar que a própria pesquisa em turismo pode ser uma alternativa, por meio de consultorias e da produção de conhecimento para empresas e governos”, explica.

A pesquisa em turismo ainda é pouco explorada e valorizada pelo mercado e Marques defende que os conhecimentos produzidos nas universidades precisam chegar às empresas e ao poder público. Para ele, turismo é, essencialmente, um fenômeno de mercado e que estudos podem ajudar a interpretar informações que não aparecem de maneira evidente nos números. “São poucas as empresas que de fato dão valor ao conhecimento produzido na universidade. Ter pesquisas que apontem direções e esclareçam determinados fatos que ficam escondidos nos números é fundamental”, diz.

Ele reconhece, porém, que a área ainda enfrenta dificuldades relacionadas à produção de dados. “A produção de dados é muito irregular e as metodologias também divergem muito, mas isso não pode ser um empecilho para que a pesquisa em turismo seja utilizada e demandada com mais frequência pelo próprio mercado”, argumenta.

A aproximação entre academia, empresas e poder público também é apontada como um desafio. Na UFF, essa relação ocorre por diferentes caminhos, incluindo projetos e estágios supervisionados obrigatórios. “Essa relação da universidade com o mercado ainda está muito aquém do que deveria. Poderíamos estreitar ainda mais os laços, porém, hoje, encontramos uma relação mais próxima com o mercado do que tínhamos há anos”, analisa.

Para o professor, outro desafio está na atualização dos currículos em uma velocidade compatível com as mudanças do setor. “Esse é um grande desafio para todos nós como educadores: acompanhar essa velocidade das mudanças”, ressalta.

Novas possibilidades de atuação para o turismólogo

Além das carreiras tradicionais, Marques identifica o empreendedorismo e a consultoria como possibilidades que ainda podem ser mais exploradas pelos profissionais formados em turismo: “Isso pode ser tanto um negócio tradicional, como pousadas, hotéis, pequenos negócios e agenciamento, quanto a área de consultoria.”

Para os estudantes que estão ingressando na área, o professor recomenda acompanhar as transformações do comportamento dos turistas e do próprio setor. Entre os exemplos citados estão o uso de aplicativos por mulheres que passaram a viajar mais, o crescimento dos apartamentos por temporada e os serviços de mobilidade.

“A demanda pelos turismólogos está muito voltada para o conhecimento, para a capacidade de traduzir as tendências do turismo, compreender as bases de dados e entender o que essas bases estão falando. Não são apenas os dados quantitativos, mas também os qualitativos. Uma mudança comportamental é muito mais qualitativa. Claro que isso se traduz em números, mas é preciso compreender esses novos comportamentos.”

Nesse contexto, ele cita o avanço de áreas como neurociência e economia comportamental nas pesquisas relacionadas ao turismo. Para o professor, o profissional precisa conhecer metodologias científicas, dados e ferramentas de análise para interpretar as transformações do setor.

No Dia dos Professores, Marques resume sua relação com a docência e com a formação dos novos profissionais de turismo. Para ele, o setor permite uma formação ampla e diferentes caminhos de carreira, que passam por eventos, agenciamento, empreendedorismo, consultoria e outras áreas. “Como professor e também como profissional da área de economia, tenho procurado formar profissionais críticos, que façam uma leitura do turismo e, obviamente, da sociedade o mais próxima possível da realidade, conectada ao que está acontecendo na contemporaneidade.”

“Para mim, é uma grande honra poder formar novos profissionais na área de turismo, porque entendo que o turismo é um reflexo de toda a nossa sociedade, em todos os níveis: valores, comportamento, tecnologia e economia. O turismo é um caldeirão que permite que as pessoas tenham uma formação muito ampla, porque demanda conhecimento de várias áreas, mas também dá a possibilidade de escolher uma área específica”, afirma.

E conclui: “Se eu pudesse resumir em uma frase o que significa ser professor, diria que é uma grande honraria ter como profissão a formação crítica de outros seres humanos, especialmente na área de turismo.”