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O Brasil está pronto para entrar na disputa global por cruzeiros? (Magnific)

“O Brasil é um país naturalmente vocacionado para o turismo marítimo. Temos uma das maiores costas navegáveis do mundo, destinos consolidados e outros tantos ainda pouco explorados, diversidade cultural, natureza, gastronomia e cidades capazes de receber desde os maiores navios do planeta até embarcações menores, sofisticadas e voltadas a experiências exclusivas. Ainda assim, nosso desempenho está longe de refletir todo esse potencial.

Os dados mais recentes apresentados pela Clia no Brasil, durante o Fórum Clia Brasil 2026, mostram com clareza tanto a força quanto a fragilidade do setor. A temporada 2025/2026 movimentou R$ 4,28 bilhões na economia brasileira apenas com a cabotagem, sustentou mais de 64 mil postos de trabalho e recebeu mais de 600 mil cruzeiristas. Somados os navios de passagem, o impacto chegou a R$ 4,76 bilhões e ultrapassou 72 mil empregos. São números expressivos. Mas poderiam ser muito maiores.

A redução de apenas dois navios em relação à temporada anterior significou 235 mil passageiros a menos, queda de 21% no impacto econômico e redução de 24% nos empregos sustentados pela atividade. Como alertou Marco Ferraz, presidente executivo da Clia no Brasil, cada navio que o país ganha ou perde representa, em média, R$ 574 milhões em impacto econômico e cerca de 10 mil postos de trabalho.

Esse dado deveria ser suficiente para despertar ainda mais atenção dos governos, dos portos, dos destinos turísticos e da iniciativa privada.

A Clia tem feito um trabalho consistente ao produzir dados, promover diálogo e defender melhores condições para a indústria. Acompanhei pela cobertura do nosso jornal o Fórum deste ano, que mostrou também o envolvimento das entidades do turismo e a disposição do setor em construir soluções. Mas precisamos reconhecer que o mercado brasileiro ainda não olha para os cruzeiros com a atenção estratégica que esse modal merece.

Enquanto o turismo de cruzeiros cresce e ganha força em diferentes partes do mundo, o Brasil continua discutindo como ser competitivo.

Precisamos avançar em infraestrutura, custos portuários, tributação, previsibilidade regulatória, segurança jurídica e sustentabilidade. Precisamos investir nos terminais e preparar os destinos. Precisamos entender que receber um navio não significa apenas movimentar um porto: significa gerar negócios para hotéis, restaurantes, transportadoras, guias, comércio, receptivos, operadores e agentes de viagens. E precisamos pensar além da chamada “temporada”.

A próxima operação já traz sinais positivos, com oito navios e recuperação da oferta. É uma oportunidade importante, mas não deve ser tratada como ponto de chegada. O verdadeiro desafio é fazer com que o Brasil se torne competitivo o suficiente para ampliar sua presença nas decisões globais de posicionamento das frotas e, quem sabe, avançar para operações durante todo o ano.

Temos demanda, destinos e uma geografia privilegiada. Falta transformar potencial em prioridade. O Brasil não pode se contentar em apenas participar do crescimento mundial da indústria de cruzeiros. Temos condições de disputar mais navios, receber mais passageiros e diversificar nossa oferta, dos gigantes dos mares às pequenas embarcações de luxo, que poderiam navegar por roteiros únicos em diferentes regiões do país.

Os números mostram que cada navio importa. O próximo passo é fazer com que o Brasil importe mais para as companhias que decidem onde seus navios estarão. Porque o potencial já está aqui. Agora, precisamos criar as condições para aproveitá-lo”.

Janaina Brito é editora do Mercado & Eventos.