
Após o episódio registrado no Atol de Vaavu nas Maldivas na semana passada, que provocou a morte de cinco mergulhadores italianos durante uma expedição de mergulho em caverna subaquática, e de um mergulhador militar sênior durante tentativa de resgate, a discussão sobre segurança em mergulhos ganhou força entre profissionais da área e agências internacionais. O caso evidencia os riscos quando protocolos básicos de segurança são ignorados, reacendendo o debate sobre a importância de preparo adequado antes de entrar em ambientes subaquáticos.
Os cinco italianos que morreram, entre eles uma professora universitária, pesquisadores e um instrutor de mergulho, tentavam explorar uma caverna que em seu ponto mais profundo fica a 70 metros abaixo da superfície. Autoridades das Maldivas informaram que o grupo ultrapassou o limite legal de 30 metros de profundidade permitido para mergulho recreativo e comercial. Uma investigação foi aberta para apurar se houve violação dos protocolos de segurança.
O Mercado & Eventos conversou com Yuri Sanada, produtor (Aventura Produções e Afrorigens) e instrutor de mergulho da NAUI (National Association of Underwater Instructors), a agência americana mais antiga do mundo para certificação de mergulhadores, e Ricardo Unger, CEO da Bubble Easy Tech e mergulhador certificado em resgate. Ambos compartilharam orientações para quem está dando os primeiros passos no segmento de mergulho e também para quem deseja evoluir em certificações mais avançadas.
Confira a checklist do que você precisa saber antes de embarcar nessa aventura
Diferenças entre mergulho recreativo e técnico

O mergulho recreativo é aquele praticado dentro de limites bem seguros, normalmente em profundidade máxima entre 10 e 30 metros, onde ainda há luz, peixes e onde é bonito, dependendo da certificação do mergulhador. “É a modalidade que a grande maioria das pessoas pratica para lazer e, quando feita com os equipamentos certos, treinamento adequado e seguindo os procedimentos de segurança, é uma atividade extremamente segura”, afirma Unger.
Já o mergulho técnico envolve mergulhos mais profundos ou de maior complexidade, onde é necessário o aprendizado e treinamento de técnicas específicas para cada tipo de situação. Existe treinamentos, por exemplo para maior tempo de fundo e para ambientes com teto, como cavernas e naufrágios com penetração, onde não é possível subir diretamente para a superfície em caso de emergência. Além disso, há o treinamento para uso de misturas gasosas e paradas descompressivas. “Se você pensa fazer mergulho técnico, é preciso ter cursos especializados para progredir, com procedimentos para aprender e praticar, existe muito cálculo da física, gases e fisiologia humana, é preciso um grande conhecimento cultural e intelectual para mergulhos como o de caverna, por exemplo”, explica Sanada.
Os perigos do mergulho profundo

Um dos principais riscos do mergulho em profundidades maiores é um efeito fisiológico chamado narcose por nitrogênio. Abaixo dos 18 metros o explorador começa a sofrer efeitos do nitrogênio que está no ar que é respirado, que sob pressão, ele satura no corpo. O mergulhador se sente “bêbado” e vai perdendo qualidade no pensamento e raciocínio, ficando desorientado, excessivamente confiante e mais propenso à erros.
A profundidade também aumenta outros riscos, uma vez que o consumo de ar e de subida são maiores, mas o tempo disponível no fundo menor. Com a profundidade e o aumento da pressão, o metabolismo dos gases muda e são necessárias técnicas específicas para o mergulho. Se um mergulhador ficar muito tempo debaixo da água, existe um limite, tem uma tabela.
“Se você pode ficar a tantos metros, tem tantos minutos, passou disso, você não pode subir direto para a superfície”, Sanada revela e completa dizendo que “o gás, sob pressão, entra no corpo e vira líquido, entrando nos tecidos e leva um tempo para sair do tecido.” Subindo direto, o gás que estava nas juntas, em locais específicos, se vira bolha pode causar problemas neurológicos e até musculares
Ricardo Unger descreve como funciona a descompressão: “O processo de descompressão consiste em subir lentamente e, quando necessário, fazer paradas em profundidades específicas para permitir que esse nitrogênio seja eliminado pela respiração. Mesmo no mergulho recreativo, fazemos sempre uma parada de segurança, normalmente a cerca de 5 metros por alguns minutos, como medida adicional de proteção”.
Em mergulhos mais profundos, esse processo é ainda mais importante e pode incluir paradas obrigatórias calculadas pelo computador de mergulho ou pelo planejamento prévio. Respeitar essas paradas é fundamental para reduzir significativamente o risco de problemas. Na prática, a descompressão é um dos principais fatores que tornam o mergulho uma atividade segura, desde que se siga corretamente os limites, monitore o computador e respeite os procedimentos recomendados.
Sobre o treinamento e preparo

Cada modalidade de mergulho exige um tipo específico de treinamento. No mergulho recreativo, certificações como Open Water, Advanced, Nitrox e Rescue já oferecem uma excelente base. Para mergulhos mais complexos, são indispensáveis cursos técnicos específicos, como Deep Diver, Technical Diving, Cave Diving e cursos avançados de descompressão.
Não ter pressa é fundamental. O mergulho técnico é uma evolução natural para alguns mergulhadores, mas exige muito estudo, treinamento e prática. Não basta acumular muitos mergulhos, é fundamental desenvolver excelente controle das técnicas básicas, disciplina e bom senso em situações mais complexas. “Antes de iniciar no mergulho técnico, eu recomendaria consolidar bem a base no mergulho recreativo e buscar instrutores experientes e reconhecidos. O ideal é avançar gradualmente, entendendo que cada nova certificação existe para preparar para desafios maiores”, recomenda Sanada.
Uma boa operação de mergulho normalmente demonstra organização, equipamentos com boa manutenção, briefing detalhado antes do mergulho e uma postura conservadora em relação à segurança. É importante verificar se a empresa e os instrutores são credenciados por organizações reconhecidas, como NAUI, PADI ou SSI, e observar se a equipe respeita as condições do mar e o nível de experiência e certificação de cada mergulhador. “Um bom sinal é quando a operação não hesita em cancelar ou modificar um mergulho caso as condições não sejam favoráveis. No mergulho, segurança sempre deve vir antes da vontade de realizar o passeio”, recomenda Unger.
Sobre as legislações, Sanada comenta que costumam ser boas, mas cada país tem um tipo de fiscalização diferente, é preciso ter discernimento e senso crítico. “Às vezes, alguém pode achar que você está preparado, mas você sabe que não pode fazer esse mergulho e que não está preparado, então deve dizer não, é preciso senso crítico”. A vantagem do mergulho, de acordo com ambos, é que ele é controlável. É possível prever os problemas. “Se você sair, por exemplo, para dirigir um sábado à noite e alguém bêbado bater em você no seu carro, você não tem como prever. Já no mergulho, se você tiver realmente em controle, você pode prever tudo que é possível dar errado”, completa Sanada.
O mergulho recreativo já oferece experiências extraordinárias com um nível de segurança muito alto quando praticado com treinamento adequado e respeito aos limites pessoais. O melhor mergulhador não é o que vai mais fundo, mas o que sabe exatamente até onde pode ir com segurança. A é atividade fascinante, mas não é obrigatório ser mergulho técnico para aproveitar o mundo subaquático. Normalmente os mergulhos até 30 metros costumam ser melhores em termos de visibilidade de cores, quantidade de vida marinha, que os mergulhos mais profundos e restritos.
Antes de partir para a aventura, lembre-se desta checklist:

- Equipamento completo em bom estado: máscara, snorkel, nadadeiras, colete equilibrador, regulador, cilindro com pressão adequada; Computador de mergulho carregado e funcionando corretamente; Lanterna de mergulho (leve duas, caso uma falhe você terá reserva); Faca ou ferramenta de corte para emergências; Corda ou carretel para linha-guia em mergulhos em caverna; Cilindros redundantes em mergulhos técnicos ou profundos; Misturas gasosas adequadas para profundidade planejada;
- Condições pessoais e ambientais: Estar em bom estado de saúde física e mental; Não mergulhar se estiver ressacado, doente ou com problemas cardiovasculares; Conferir previsão do tempo antes de sair; Evitar mergulhos em dias de chuva forte, que aumentam correntes, turbidez e risco de enchentes; Avaliar visibilidade da água no local; Verificar força das correntes marinhas; Conhecer a temperatura da água e vestir roupa adequada;
- Conhecimento prévio: Pesquisar sobre o local de mergulho antes de ir; Saber a quilometragem, profundidade máxima, altitude e nível de dificuldade; Conhecer se há linha-guia estabelecida no local; Informar alguém sobre onde você vai e a hora prevista de retorno; Baixar mapa da área em aplicativo específico; Ler as placas de informação no início do local;
- Certificação e experiência: Possuir certificação compatível com tipo de mergulho planejado; Não tentar realizar mergulhos além de sua formação; Ter experiência mínima recomendada para o tipo de ambiente; Realizar treinamentos específicos antes de aventurar-se em novos ambientes;
- Antes de mergulhar: Informe-se antes, pesquise sobre o local, conheça o percurso e suas exigências; Contrate guia ou condutor local se não tiver experiência; Leia todas as informações disponíveis sobre a área; Confira condições do mar e previsão do tempo; Realize briefing completo com sua dupla de mergulho;
- Durante o mergulho: Nunca mergulhe sozinho, sempre vá em dupla ou grupo; Mantenha contato visual com sua dupla o tempo todo; Respeite os limites de profundidade de sua certificação; Monitore continuamente seu consumo de ar; Siga linha-guia em mergulhos em caverna ou ambientes fechados; Não saia da trilha subaquática ou desvie da rota planejada; Se algo não parece certo, aborte o mergulho; Comunicar-se constantemente com sua dupla através de sinais combinados; Manter calma e sangue frio em situações de emergência;
- Responsabilidade pelo grupo: Se você convidou alguém para mergulhar, você é responsável pela segurança dessa pessoa; Garantir que todos no grupo têm certificação apropriada; Verificar equipamento de todos antes de entrar na água; Estabelecer sinais de comunicação e plano de ação em caso de emergência;
- Respeito ao ambiente: Não toque em corais ou organismos marinhos; Evite remexer no fundo, pois turbina a água; Não alimentar peixes ou outros animais marinhos; Respeite fauna e flora local; Leve todo lixo que levar para o mergulho;
- Conhecimento dos próprios limites: Esse é o grande perigo e a parte mais crucial de estar preparado para mergulhar.







