
Por Vinicius Lummertz
Em Istambul, participei como keynote speaker do congresso anual da Aliança Internacional dos Municípios Em Istambul, participei como keynote speaker do congresso anual da Aliança Internacional dos Municípios Turísticos da Rota da Seda, onde tratei de investimentos em turismo, tema particularmente importante para o Brasil, país de extraordinários ativos naturais e culturais, mas que ainda enfrenta dificuldades para transformá-los em projetos capazes de receber investimentos na escala de seu potencial.
Há uma questão maior por trás dessa discussão. O balanço global alcançou quase US$ 1,8 quadrilhão em ativos em 2025, segundo o McKinsey Global Institute, dos quais cerca de US$ 620 trilhões correspondem a ativos reais. Desde 2000, esse balanço praticamente quadruplicou, impulsionado pela enorme expansão dos ativos financeiros. Isso não significa que todo esse patrimônio esteja disponível para investimento, mas revela uma característica de nosso tempo: existe uma massa extraordinária de capital em busca de alocação, segurança, valorização e retorno.
O turismo tornou-se um dos setores em que esse capital encontra ativos reais. Segundo o WTTC, mais de US$ 1 trilhão foi investido mundialmente em viagens e turismo em 2025, um crescimento de 8,5% em apenas um ano. Estados Unidos, China, Índia e Arábia Saudita concentraram US$ 494 bilhões; somente Estados Unidos e China responderam por US$ 420 bilhões. A distância latino-americana impressiona: na projeção do WTTC para 2036, a Índia deverá investir sozinha quase o dobro do volume de toda a América Central e da América do Sul.
É aqui que precisa cair a ficha no Brasil. Não faltam recursos financeiros no mundo, nem ativos turísticos no país. Falta transformar uma parcela muito maior desses ativos em oportunidades capazes de receber capital.
Essa constatação leva a outra pergunta: para onde irá o próximo bilhão de turistas do planeta? Os destinos tradicionais continuarão recebendo grandes fluxos, mas muitos já convivem com custos elevados, limitações físicas e overtourism. Novas geografias podem oferecer maiores possibilidades de crescimento e valorização, desde que estejam preparadas para receber simultaneamente viajantes e investimentos.

Foi essa a questão central que procurei desenvolver em Istambul. Uma praia excepcional, uma cidade histórica, um parque nacional ou uma grande atração natural despertam o desejo de viajar, mas não são, por si sós, investíveis. O capital de longo prazo procura algo mais completo: ecossistemas turísticos estruturados, com planejamento, segurança jurídica, estabilidade institucional, infraestrutura e conectividade, hotelaria, mobilidade, gastronomia, comércio, cultura, esportes, eventos, tecnologia, serviços e experiências, além de projetos definidos e condições previsíveis para sua execução.
É o ecossistema que transforma potencial turístico em oportunidade de investimento. Quanto mais completo, conectado, planejado e institucionalmente seguro, maior sua capacidade de receber grandes volumes de capital e fazer com que investimentos diferentes reforcem uns aos outros. A atração leva o visitante ao território; o ecossistema permite que ele permaneça, consuma, circule e retorne, criando, ao mesmo tempo, condições para novos negócios. É a lógica da economia do visitante, que transforma o turismo em uma plataforma multissetorial de desenvolvimento econômico e social.
Há ainda a questão da simultaneidade. Grande parte dos ecossistemas turísticos europeus foi construída organicamente ao longo de gerações; hoje, podemos encurtar esse caminho. Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e China mostram, de maneiras diferentes, como infraestrutura, conectividade e investimentos coordenados aceleram a transformação de um território. Quando aeroporto, estrada, hotelaria, atrações e serviços avançam em períodos próximos, cada investimento cria mercado para os demais e reduz o risco do conjunto. Quando caminham separadamente, o hotel espera pela estrada, o empreendimento pela licença e a região pela conectividade, enquanto o tempo aumenta o custo do capital.
Simultaneidade não significa, porém, medir todos os investimentos da mesma maneira. O capital privado procura lucro, fluxo de caixa, valorização e retorno; o investimento público tem outra anatomia de resultados, medida também por empregos, renda, arrecadação, infraestrutura, conectividade e desenvolvimento urbano e regional. Uma estrada ou um aeroporto podem produzir seu maior retorno econômico nos investimentos privados que tornam possíveis ao seu redor.

Para o Brasil, compreender essa lógica significa reconhecer nosso atraso. Projetos turísticos complexos ainda enfrentam dificuldades de licenciamento, aprovação, infraestrutura, coordenação e previsibilidade. Foz do Iguaçu mostra o caminho: as Cataratas são o grande ativo, mas seu valor econômico se multiplica pelo aeroporto, pela hotelaria, pelos parques, pela gastronomia, pelo comércio, pelos serviços e pelas experiências construídos ao redor delas. Essa compreensão pode ser aplicada aos parques nacionais, ao turismo náutico, ao patrimônio histórico, às artes, aos esportes e à economia criativa, assim como aos distritos turísticos cuja implantação iniciamos em São Paulo.
Existe capital procurando retorno, existe uma nova geração de viajantes procurando destinos e o Brasil possui ativos extraordinários. A competição mundial, porém, não será vencida por quem apenas possuir as melhores paisagens, mas por quem conseguir transformá-las em ecossistemas investíveis, com planejamento, projetos, conectividade, segurança jurídica, estabilidade e continuidade. Talvez seja essa a ficha que ainda precise cair para que o Brasil transforme seu enorme potencial turístico em investimento, desenvolvimento econômico e prosperidade.






